Recuso quase tudo o que me dão: comprimidos, conselhos ou
maneiras de ver a vida. Não suporto esta maneira bem educada de saber o que se
quer para a vida dos outros. Estou bem sozinha, muito obrigada. Quer dizer, ás
vezes não estou. Ás vezes, até me apetecia estar com alguém, amar um coração
perdido, cozer uma amizade em lume muito brando. Mas não sendo possível – e não
o é a maior parte do tempo –fico-me pelo que tenho. É como ver um copo meio
cheio que na verdade está mesmo quase vazio. Claro que posso sempre fugir para
o campo e deitar-me no fresco chão dos campos de trigo a ouvir o vento embalar
as espigas. Mas acabo sempre por guardar esse momento na mais pequena matrioska
do meu coração. Ainda não é altura – um dia será. A vida é demasiado fodida
para que eu ceda já. Quer dizer, tem de haver algo melhor do que isto, não se
pode acabar simplesmente assim. Já se sofre tanto nesta puta de vida sem propósito
nenhum, que resistir é a única careta que se pode fazer à morte. E enquanto resistes, bebe as gotas que
sobrarem dos copos esvaziados. Guarda, como diz a Sophia, as “coisas que sabes
amar junto ao peito” e deixa que elas te preencham sempre que puderem. Já
bastam as saudades, os mortos e os vivos que enterraste, as decisões que te
estriparam. Já basta quando tens de assinar um papel a aceitar que a morte é a
única solução. No resto do tempo deixa-me
me paz! Não faças da minha vida tua vida. Não faças dos meus pés o teu caminho.
A vida é demasiado curta e cheia de tortuosidades para perdermos tempo com
aquilo que não nos é verdadeiro. Mas é mesmo.
Translate
Monday, June 22, 2015
Sunday, June 21, 2015
Solstício
"Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze"
Sophia de Mello Breyner Andresen
Thursday, February 26, 2015
Red queen effect
Sentes isto? Parece que a vida já acabou, que vai
depressa de mais.
Não há cobertores ou camisolas quentes o suficiente para
me aquecer deste frio grotesco que me vai mirrando os ossos. Todos os dias me
parece que o tempo é cada vez mais curto e eu simultaneamente lenta de mais.
Todos os dias me parece que quero sempre de mais, que preciso sempre de mais.
Tu não queres?
Nós só queremos fazer com que valha a pena esta nossa
viagem. Mas assim que paro para tirar uma fotografia da janela, a paisagem já mudou.
O que aconteceu entretanto? É isso que me incomoda, a forma como tudo acontece
nos entretantos. Onde é que eu estou nesse tempo?
Tudo gira descontroladamente. As épocas vão passando sem
que eu as esgote. Sem que eu tenha a sensação que demos tudo o que
tinhamos. E nunca estou preparada para
seguir em frente.
Parece que é sempre de noite, aquele momento em que me
sento na cama de pijama e passo creme nas mãos. Nessa altura dou-me conta que
os lençois vão mudando a cada dia e que a minha pele está diferente e prometo
que no dia seguinte vou ser mais rápida,vou
fazer o que me vem à cabeça enquanto adormeço, que vou prestar atenção.
Mas quando acordo de manhã, já vou atrasada e tudo fica, irremediavelmente,
para trás.
Friday, December 19, 2014
Without the sour the sweet is never as sweet
(Vanilla Sky)
A vida é tão
boa. Mesmo quando é má.
Levanta-te e
caminha, olha em volta.
Tu és dono
de tudo e em ti estão todas as respostas.
Mesmo que haja
dias negros, pensa que não morreste
ainda.
Há uma
chance ainda.
Não me digas
que sou optimista. Logo eu, que estou
tantas vezes
triste. Não percas tanto tempo a pensar
onde falhaste
ou de quem sentes falta:
esqueces-te
de ti.
A vida és
tu.
E claro o
sol, o mar, o cheiro da roupa lavada. As noites de Junho.
Todos os
teus amores.
Enquanto há
vida há sempre um recomeço
Por mais
estreito ou duro ou amargo.
Há sempre
mais uma oportunidade de te levantares
e te
maravilhares com o bater do teu coração.
Deixa para
trás os dias tristes, vai fechando tudo
em caixas.
Haverá
sempre um dia em que percebes que tudo
valeu a pena.
Saturday, December 13, 2014
Nada
Near my home there used to be a beautiful lake, but then it was gone.
Did the lake dry up?
No, it just wasn't there anymore. Nothing was there anymore. Not even a dried up lake.
A hole ?
No, a hole would be something. It was nothing.
(Neverending story)
O tempo frio e chuvoso escondia-nos o que podia ser uma cidade linda. Debaixo desta neblina contínua, ela dirigia-se incertamente rápida como finjindo saber exactamente aonde queria ir. Como uma sombra discreta, eu segui-a também para todo o lado, aquecia-lhe as mãos quando ela parava e os dedos esguios se enregelavam como paus secos e sentava-me a seu lado nos bancos das paragens de metro, naqueles breves minutos em que ninguém estava no átrio e se ouvia assustadoramente o som grave do coração dela a ecoar pelas paredes.
Ela, claro não notava a minha presença, há muito tempo já que me habituara à minha mera condição de fantasma. Um tempo houve em que tivera um corpo quente mas isso era agora um passado tão distante que era como se simplesmente nunca tivesse sido.
Ela subia a rua íngreme, o bafo quente saia-lhe da boca como uma labareda tímida, e eu seguia-a como sempre curioso e inquieto. As iluminações de Natal mal se viam debaixo da neblina e indiferente a isso – e a quase tudo, ela continuava a escalar a rua. Parou à porta da igreja onde por breves segundos se deteve. Depois entrou e percorremos lado a lado aqueles corredores de pedra fria e de cheiro a musgo. Outras pessoas foram entretanto chegando e ocupando os vários lugares disponíveis. A meio da igreja ela decidiu também sentar-se. O frio era intenso e mais grotesco que nunca. Sentei-me a seu lado, os olhos dela olhavam para frente, um grupo de crianças com os seus bibes brancos imaculados agrupavam-se junto a um orgão ancestral. Quando o relógio bateu as nove horas as crianças começaram a cantar. As suas vozes frágeis e inocentes encheram a ingreja, e cantavam com tamanha melodia que por momentos o frio desapareceu e uma paz avassaladora nos abraçou. Vi que uma lágrima tímida aparecera nos seus olhos e que ela automaticamente a limpou com a mão. Mas ao fazê-lo mais lágrimas apareceram e as suas mãos deixaram de ser suficientes.
Tinha já passado tanto tempo. No ínicio custou-lhe tudo.
Depois custou-lhe apenas a ausência .
Vi-o em todo o lado, em todas as esquinas
Em todos os passeios, em todas as ondas do mar
Costumava andar pela rua com ele
(lembra-se agora!)
Depois ficou apenas a rua e ausência dele pintada nas paredes
para onde quer que olhasse.
E o tempo passava implacável destruindo tudo,
reduzindo Tudo a Nada.
Passou tanto tempo que se esquecera
que um dia sentira dor e raiva
cada vez que esperava sozinha que o metro chegasse.
E que o vazio que ele lhe deixara era a única
coisa que tinha.
Abriu os olhos e sorriu-me. Sorri-lhe de volta, animado pelo calor das vozes que nos cercavam. E vi o braço dela erguer-se e devagar pousar a sua mão em mim. Debruçou-se e devagar sussurou-me ao ouvido:
Tenho saudades tuas.
Sunday, November 16, 2014
Tentei escrever um texto,
para expelir a minha raiva.
Ou olhar pela janela o dia todo
para me conformar com a tua ausência.
Mas quanto mais os dias passam,
menos tenho para dizer
menos janelas existem à minha volta.
Não sei o que fazer.
Se me enrolo nos cobertores
não consigo dormir.
Se passeio na rua o céu é pesado
e esborracha-me.
A vida tem seguido em frente sem ti.
O Sol não parou de aquecer nem a chuva
de regar as plantas.
E ao fim de todo este tempo
isso é o que mais custa.
Nenhum texto te tráz de volta,
Nenhuma janela me consola.
Esta é a definição da vida por oposição
À morte.
(em memória da Farrusca, e porque o melhor amigo do homem ás vezes é mesmo um cão)
Friday, October 03, 2014
Essa Música
Conforta-me,
respira-me. Faz-me saber quem sou.
Não há nada
pior do que esta lenta perda de
indentidade.
Sem música e
sem a arte
Tudo é monotonamente.
Sem mar, sem
Lua, sem as constelações das
noites
quentes.
Apenas um
bater de horas de uma vida apressada
para nenhum
lado.
Conforta-me.
Faz-me respirar contigo. Ás vezes,
abro a
janela, as folhas já cairam das árvores e eu
não sei o
que foi do Verão: Morri momentaneamente
sem dar
conta.
Preciso que
me respires, para que saiba quem sou.
Porque
enquanto te ouvir, tudo o que vale pena
existe,
E a minha
existência existe, mesmo que
eu já esteja
morta.
Subscribe to:
Posts (Atom)
