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Wednesday, June 01, 2016

Histórias

“Nao gosto disso. Nao gosto de vicios, fazem-me sentir descontrolado”. O cafe inchava de barulhos, e o resto das pessoas sentadas na nossa mesa gesticulavam como se comunicassem por mímica. As luzes avermelhadas mostravam-me a sua cara ligeiramente zangada. Quando ele queria, sabia ser desagrádavel como ninguém.
Ninguem reparou nesta conversa perpendicular, em como ele encostava as pernas ás minhas por baixo da mesa, mas afastava os ombros de mim enquanto brincava com a colher. Tudo nele aproximava e afastava.
E tudo aquilo porque lhe disse que de manhã nao conseguia trabalhar sem primeiro beber um cafezinho a escaldar.
Poucos momentos foram tao decisivos como este. Encolhi os ombros e olhei lá para fora, para o frio azul, depois disse que ja era tarde e fui-me embora sem me despedir de mais ninguém.
Aparentemente, eu tinha muitos vícios, mentir era só mais um.

Percorri as ruas com o frio a encher-me os vácuos que ele tinha a magia de encontrar em mim. Apertava os braços um contra o outro; a tentativa vã de esconder os buracos de bala do meu corpo franzino. Agora mais do que nunca, sentia-me suja e mediocre. Ele inseria em mim a fraqueza de quem eu era, sempre viciada em alguma coisa, quanto mais nao fosse em nada.
A minha casa na penumbra lembrava um recanto de armário recolhido do mundo. Atrevi-me a espreitar a janela, por detras das cortinas: sim, o Mundo continuava lá fora.
A postura dele nao me saía da cabeça, os seus olhos desaprovadores, a sua aparente compaixão. Peguei na garrafa com uns restos de whisky e despejei-a na minha garganta. E de repente percebi que o odeiava.  Esgotei as outras garrafas que tinha em casa e arrastei-me finalmente até a cama, com uma deliciosa sensação de tontura. “O mundo é belo” pensei deslumbrada “ e aquele filho da puta não sabe o que é viver”.

Passado uns dias encontrei-o. Eu vinha a sair do metro e puxei dum cigarro que pendurei nos lábios enquanto procurava o isqueiro sempre desaparecido, quando ele passou por mim. “Merda” pensei instantaneamente. Era tarde demais para tirar o cigarro da boca e por isso acendi-o enquanto lhe dizia boa tarde com um sorriso demasiado aberto. Até a mim me espantou o quanto eu lhe queria compensar os meus vícios.

A conversa nao durou muito, depois de umas curtas frases frias. Antes de se ir embora ele comentou o facto de eu ter deixado a mesa dele demasiado cedo, naquela noite. Perplexa, não fui a tempo de responder e ele desapareceu, sempre no seu passo compassado com o da sociedade. 

Sunday, July 19, 2015

Insatisfação

I.
Eram 22 horas quando ele finalmente abriu a porta e saiu daquele mundo. Não estranhou a areia grossa nos pés, nem o silêncio rochoso que de um momento para o outro o rodeou. Não estranhou a noite azul púrpura na retina dos seus olhos nem a brisa quase estática, quente e perfumada. Não tinha tempo para estranhar, ocupado como estava a sentir-se feliz.

II.
Fazia já alguns anos que estas pontadas lhe surgiam. Como dores agudas nos ossos, quando o tempo muda, estas pontadas iam e vinham. Ás vezes demoravam-se um pouco mais e ele pensava “tenho de tratar isto”, mas acabava sempre por se fazer esquecer.  Até à proxima pontada. E eventualmente a distância entre pontadas diminuiu o suficiente para lhe começar a doer a toda a hora e ele perceber que as pontadas raras que agora lhe surgiam, eram as de alívio.

III.
O seu amor fora esfriando lentamente, como uma chama ténue de lareira. Ele ficara sentado no sofá a vê-la partir, sem mais combustível para a alimentar. Quando finalmente se extinguiu,  levantou-se, acendeu uma vela e caminhou tropegamente, assustado com a falta de clareza. Quando chegou à porta, pousou a vela e ajoelhou-se de olhos fechados. Devagar deixou os pensamentos que o cutucavam sair em liberdade.

IV.
Quando era novo, há muitos anos atrás, vivera nas montanhas perto do mar, onde a areia era grossa. Para quebrar o silêncio, costumava gritar o seu nome nos desfiladeiros e o som do seu eco enchia-lhe o peito dum amor que ainda não conhecia. Um dia, sufocado pela ausência de Tudo, pegou na mochila e apaixonado, mudou de Mundo.   

Monday, August 05, 2013

A Bela e Monstro

Maria partiu todos os corações quando era muito jovem. Social, faladora e ciente de como chamar as atenções isso nunca lhe foi dificil. Desde muito cedo que assimilou a necessidade  de se impôr num mundo onde nada mais existia para além da graciosidade, do poder do pódio e da beleza das conquistas. Trazia inevitavelemente atrás de si, uma longa colecção de corações que acabava sempre por destroçar. Os rapazes mais populares viam igualmente nela um prémio apetecivel, mas eram sobretudo os rapazes tímidos e frágeis que a seguiam. Para eles, Maria era uma espécie de Deusa,uma celebridade que enche as paginas das historias côr-de-rosa. Dona de um corpo perfeito, o seu sorriso sempre aberto mostrava uma aparente generosidade que a santificava. Mas aquele muro empático escondia a sua voracidade egocêntrica: Maria colecionava pessoas. Como uma viciada em heroina, Maria atraía os homens para os ter à espera. O seu vício consistia nesse prazer constante de saber o desejo dos que a rodeavam. E sempre que um partia, ela arranjava outro como para não desmanchar aquela aurea que mantinha em sua volta e que, nem nunca se dar conta, era o que usava para evitar confrontar-se com a sua mais profunda solidão.  
Percebi, depois de a conhecer, que ela nunca estivera apaixonada e tão pouco sabia o que era essa dor e essa alegria de finalmente se encontrar viva. Por detras daquela fachada perfeita, escondia-se uma imperfeição de pessoa, constantemente inacabada ou superficial. E por isso, na correria dos seus dias sempre ocupados, Maria nunca percebeu a dor que foi causando. No entanto, Maria valorizava a amizade acima de tudo, muito acima de qualquer amor que pudesse ter. Era com amigos que conseguia relaxar e deixar as suas poses. Era com amigos que aproveitava a vida, e foi com amigos que aprendeu a ouvir outras histórias e a relativizar o seu ponto de vista, sempre tão unilateral e pragmático.
Em mim, Maria viu uma pessoa contrastante e misteriosa. Confessou-me a sua vida em pouco tempo, não resistindo à minha maneira taciturna de ser bom ouvinte.  Pediu-me conselhos, expôs as suas falhas e levou-me em viagens obscuras até ao seu passado. Assim conheci a história de Jorge, um dos seus namorados. Conheceram-se numa festa e a Maria agradou-lhe o seu visual latino e fresco. Jorge tinha um excelente aspecto, a sua barba por fazer rente à face era charmosa sem ser vadia. O seu corpo alto e cuidado, a sua forma simpatica de acolher convidados, tudo isto Maria achou delicioso. Em menos de uma semana, conseguiu levá-lo a jantar. Mas aquela aparência em breve pôs a nú um rapaz frágil e demasiado empenhado no conforto dos outros. Jorge era estudante de música e tocava saxofone. Passava muito tempo sozinho e gostava da sua vida pacata e elitista que se alimentava sempre dentro do mesmo círculo. Maria confessou-me que tivera sido difícil convencer Jorge a sair com ela. Como quase sempre acontecia, Maria forçava as situações até ao limite do impossível. E perante tamanha  desfaçatez, Jorge sucumbiu. Porque era sempre assim, Maria era capaz de sair depressa do pântano que causava, mas uma vez entrando naquelas areias, sabia que Jorge jamais saira delas. E assim aconteceu, quando ao fim de algum tempo Maria se cansou das horas que Jorge passava a ensaiar, ou se queixou dos poucos amigos que tinha. Fora uma desilusão, dissera-me ela. Ele não era o que prometia. Nessa altura, pela primeira vez, percebi quão dura era a sua crueldade. A sua pretensa perfeição estilhaçou-se aos meus pés e tudo o que conseguia ver era um Monstro embelezado.
Jorge sofreu para além do limite com aquela separação. Mais do que perder um amor, perdera a sua identidade. Sentia que a sua vida era ridicula, e que o seu estilo de vida melancólico era um empecilho. Quando mais tarde o vi, ele parecia ter seguido literalmente as passadas de Maria, borrara da sua vida a ternura e a compreensão e agora dominava a arte do pragmatismo, e procurava incenssantemente a luz de qualquer ribalta.

Foi nessa altura que também eu deixei Maria. Cansada de esperar que o Monstro começasse a amar, percebi que não havia chão para que medrassem rosas. Nunca Maria mudaria quem era. Por isso escrevi-lhe uma carta em que me despedi da nossa breve amizade, dizendo-lhe que seguiramos caminhos diferentes e que não mais fariam sentido as suas confissões. E não mais pensei nisso, até receber as cartas e os telefonemas destroçados de Maria que vez após vez me pediam a nossa amizade de volta. Dizia que eu lhe fazia falta e não compreendia as minhas razões. Quando lhe disse que a empatia entre nós se tinha esvaído e que eramos duas pessoas demasiado diferentes para irmos tão paralelas, Maria percebeu que era uma desilusão para mim e que não dera tudo o que prometera. E eu dei-me conta que sem querer, fui o seu primeiro Monstro.  

Saturday, June 15, 2013

Some girls are bigger than others

Era o primeiro dia de aulas da faculdade de Inês. O secundário estava finalmente para  trás e com ele longas horas de desespero mudo entre colegas atarracados e professores petulantes, obesos de uma banalidade que enjoava. No entanto, enquanto apanhava o metro sentia ainda o passado como presente; um corpo ligado à maquina cujo obito acabara de ser declarado. Todo aquele passado, embora maioritariamente vazio era tudo o que conhecia. E sem ele a sua nova pessoa era uma tábua rasa à espera de nova escrita.

Ao longo dos anos colecionara pessoas das diferentes escolas por onde passara, sem nunca se relacionar profundamente com nenhuma. Gostava de escrever, mas saiu do Jornal da Escola quando um dos professores não aceitou o seu artigo sobre a efemeridade da Neve que caira nesse ano, numa cidade sempre quente. Mais tarde, noutra escola o ensaio de Português sobre o seu escritor favorito Oscar Wilde veio rejeitado por estar escrito de forma arrogante. No último ano recusou-se a participar no programa da escola de voluntariado a crianças com cancro. Todos os seus colegas de classe o fizeram, apregoando as desgraças das vidas que viram desaparecer. Lembro-me de ver Inês nesse ano, sentada ao fundo da sala do pavilhão onde a apresentação teve lugar. Quando os seus colegas terminaram de falar, a audiência chorava em peso sem se dar conta que não eram os clichés daquelas frases baratas mas a ideia da sua própria morte que lhes molhava os olhos.  Inês limitava-se a ouvir e a observar passivamente e de vez em quando os seus olhos pretos cor de azeitona afastavam-se. Nessa noite, talvez pela fragilidade da vida que mais ninguém vira naquela sala, Inês confessou-me à saída da sala que conhecia uma rapariga cuja mãe tinha apenas 6 meses de vida. “É tua amiga?” perguntei-lhe eu, enquanto ela se sentava na beira do lago de pedra que era o Mundo absoluto de três peixes vermelhos. Ela riu-se naquele seu jeito sempre bem disposta: “Importa apenas o que estas pessoas não sabem quendo fazem apresentações como estas”.

Inês adaptou-se à nova vida na faculdade em menos de uma semana. Um novo mundo cheio de novas pessoas estremeceram as suas articulações e balançou-lhe as perspectivas. Ao fim de algum tempo tinha um grupo de amigos com quem estudava e ouvia música. Cada dia a vida lhe trazia uma nova surpresa e Inês descobriu-se uma pessoa diferente capaz de apreciar pequenos doces da vida sem se sentir mutilada. Pensava frequentemente que na antiga escola era um dos peixes vermelhos presos num ridiculo lago de pedra, mas que o oceano era infinito. Nunca vi Inês tão feliz como nesse tempo e talvez nunca mais a volte a ver. Nestas noites ela escolhia a roupa que melhor lhe acentava sem uma ponta de narcisismo. Ria de forma perfeitamente espontanea e agitava-se na sua pele uma tranquilidade de quem encontrou o que procurava. Havia uma inocência nessas noites que cheirava a alecrim. Lembro-me dessas noites porque essa inocência que exalava dela me acalmou a mim também.
Durante esse tempo Inês estabeleceu uma relação silenciosa com um rapaz tímido que se sentava à sua frente nas aulas de matemática. Os seus olhos pretos perscutavam toda a intencionalidade das mãos grande e delicadas e do corpo franzino preso numa roupa quadrada e impessoal. Quando lhe perguntei porque é que ela gostava dele, disse-me que ele não a julgava. Na altura não entendi a resposta. Mas agitei-me com a  estranheza de a ver estabelecer a relação mais profunda da sua breve vida com alguém com quem não falava. Quando o semestre chegou ao fim eu sabia que ela estava irremediavelmente apaixonada. Não era um amor físico e vadio e tão pouco uma paixão platónica. Inês tinha finalmente conhecido os laços de uma amizade profunda e sucumbira ao seu efeito mais radical.  Mas a vida na sua lentidão e podridão ainda não lhe tinha mostrado tudo. Com o passar do tempo a sua nova vida era agora tudo o que conhecia. E um dia houve em que se apercebeu novamente da sua estranheza entre os seus. As conversas perderam-se porque nunca evoluíram com ela e aquele silêncio das aulas de matemática era cada vez mais reconfortante, como a Neve que caíra e que ela imortalizara naquele pedaço de papel. E numa tarde igual ás outras atendeu o telefone para que a rapariga de que me falara meses antes, lhe dizer que a mãe tinha finalmente morrido. Os seus colegas riam na esplanada enquanto ela recebia a notícia sem saber o que dizer. Quando desligou, sentou-se à mesa e contou-lhes. As suas expressões vazias eram iguais  às lagrimas ignorantes que nunca derramaram. Depois de umas poucas palavras ocas voltaram às suas realidades de peixe vermelho sem que nada mudasse nos seus pensamentos sequer por um segundo.  

Só a vi semanas mais tarde. Disse-me que agora estudava sozinha, num outro pavilhão. Quando lhe perguntei pelo rapaz limitou-se a encolher os ombros com uma indiferença que me emocionou. Eu vi-o também algum tempo depois de Inês ter endurecido. Sentado num banco de madeira resistia com dificuldade a uma rapariga ruidosa que o rodeava e lhe tentava entrelaçar as mãos nas suas. 


Sunday, October 07, 2012

Estar apaixonado é ver o Sol nascer dos dois lados


« Estar apaixonado é ver o Sol nascer dos dois lados »
 provérbio finlandês

Saiu de casa sem vontade, atravessou a rua e tirou a chave para desbloquear a bicicleta estacionada ali durante toda a noite. Os pedais moveram-se acusando um som agudo e preguiçoso e debaixo dum nevoeiro espesso ele desapareceu ao fundo da rua, engolido pela madrugada fantasma.
Era normal haver pouco sol, especialmente durante o Inverno em que a neve cobria timidamente os beirais das casas e aquele nevoeiro sobrevoava toda a cidade como um vigilante. Mas nunca isso o impedia de se levantar e  viver a sua vida rotineira, tão bem quanto sabia.
Naquele dia porém, algo mudou. Em cima da sua secretaria estava o correio do dia. Quando se preparava para abrir as cartas, ouviu pela primeira vez a voz dela. Uma gargalhada tímida e límpida ecoou na sala. Levantou-se e foi até à porta, espreitou e viu uma mulher de cabelos negros e olhos de amêndoa. “É bonita”, pensou imediatamente. Mas encostou a porta e voltou a sentar-se na sua secretrária de aprendiz. O coração batia sem que soubesse porquê. Precisava de férias, pensou. Ao almoço no entanto, apresentaram-lhe Maria, a argentina que ficaria a trabalhar com eles. Ele acenou, num cumprimento formal e retraído: não só ela era linda como era mais velha.

Bert tinha vinte e três anos e acabara de começar. No inicio ficara entusiasmado com a sua independência mas rapidamente tudo aquilo se transformara num fardo que era tão dificil de suportar quanto era de denunciar. A sua namorada mais recente parecia querer ficar com ele para sempre e os preceitos evocavam que começassem a pensar na casa que queriam. E se a queriam tinham que a construir. E para a construir precisavam do dinheiro de Bert e da sua estabilidade.
Ás vezes quando o Sol espreitava, ele ainda gostava de pegar na sua bicicleta e pedalar ao longo do canal, onde não havia ninguém e ai pensava que era bem feliz assim. Mas outras vezes, no escuro do seu quarto, com os olhos fechados julgava ver rasgos momentaneos de cor. Depois adormecia e esquecia tudo no dia seguinte. Havia porém, algo que Bert nunca esquecia, pois nascera com a rara doença de não ter olfacto. A sua mãe cansou-se durante a infância de lhe trazer flores e passa-las pelo seu nariz. Enumerava os nomes e dizia-lhe para fechar os olhos e inspirar com força. Com os anos, Bert como um mau aluno que se remedeia dizia a medo parecer sentir qualquer coisa. Mas era inútil, ele não fazia ideia do que procurava e ninguém lhe conseguia descrever o que era esse cheiro que lhe faltava.
Naquele dia ao almoço, ele imaginou que o olfacto fosse parecido com Maria.

Dias depois quando saia bem tarde do trabalho, Bert viu-a por entre os troncos magros das árvores. Estava já escuro mas os cabelos pretos revoltos denunciavam-na. “Maria?” perguntou ele a medo. A vegetação mexeu-se e ouviu-se um choro grave. Bert tirou as mãos dos bolsos e caminhou em direção das árvores tentando não fazer barulho. Ela estava sentada no chão, em cima da musgo húmido, sem casaco e cobria a cara com as mãos, dobrada sobre os joelhos. Bert baixou-se e pôs-lhe a mão no ombro, ficando imediatamente gelado. “Vamos embora” disse-lhe determinado. Ajudou-a a levantar-se e caminhou até à paragem de autocarro mais próxima com a mão no seu ombro. Nessa noite, ligou à sua namorada e mentiu-lhe pela primeira vez. Depois levou Maria para o seu modesto apartamento, deixou-a tomar um banho quente enquanto preparava um chá forte.
Enrolados em mantas falaram até de manhã. Lá fora nevava e Maria falava-lhe do homem que a deixara por ela ter saído da Argentina. Bert ouvia deslumbrado a paixão que lhe escorria na pele. A maneira como ela falava, os seus gestos e o calor dos lábios tudo tinha movimento e intenção. Os seus olhos enchiam a casa de expressão e era viciante, como um novo sentido que se descobre.
Quando o sol ia alto Maria adormeceu. A sua face estava rosada da exaltação e queimada do frio. Ele não tinha sono, nem dormir àquela hora lhe fazia sentido, mas como num pequeno sonho, também ele se deitou no soalho enrolado naquelas mantas e fechou os olhos. De tarde Maria acordou e voltou para o seu apartamento do outro lado da cidade.E quando finalmente o cansaço se começava a apoderar dele, ouviu o toque da porta. Era a sua namorada e a sua antiga vida.
Nas semanas seguintes Bert conheceu o cansaço extremo de uma vida dupla. Sempre que podia estava com Maria, passeavam e conversavam, no pouco resto de tempo ele fingia que nada se passava com a sua namorada. Ás vezes à noite pensava para si de olhos fechados “tenho de parar com isto” mas depois adormecia e esquecia tudo no dia seguinte. E quanto mais Maria dependia dele, mais ele gostava dela.  
Falavam frequentemente do Amor. Bert queria entender e sentia que ironicamente, algo lhe faltava. “Estar apaixonado é como andar aos solavancos numa montanha russa. Sentir o estômago perto dos pés e o coração no topo do mundo. Saberes que vais cair na vertigem mais profunda e abrires os braços ao vento. E aquele saber profundo, semi-consciente de que vale a pena estar vivo” disse ela. Ele cruzava os braços e e olhava de forma franzida o horizonte. Como ele desejava afundar-se naquela loucura, se ao menos ele soubesse como fazê-lo. “Não tens medo de cair dessa montanha?” perguntava-lhe. E ela dizia “Tenho é de medo de nunca chegar a andar”.
Quando o tempo passou, Maria parecia estar restabelecida daquele longínquo dia em que ele a encontrara caída no chão gelado. As memórias do outro homem desvaneciam se lentamente, pela mão implacável do tempo e Bert ganhara um lugar especial na corrida que mais desejara. Até que um dia, sem nada que o pudesse esperar, Maria recebeu uma carta da Argentina. Perturbada ela chamara-o até sua casa e calcava ansiosa o soalho de um lado para o outro. Mal chegou, Bert viu que ela se  escapava de si como areia entre os dedos. Pegou na carta sabendo de antemão o que iria encontrar e os olhos passaram por cima das letras dum espanhol que em tempos aprendera.
Inspirou com força de olhos fechados e pegou-lhe na mão. “Achas que devo voltar?” perguntou ela. “Sim, a corrida ainda não acabou para ti”. E assim que o sangue lhe começou a correr nas veias, abriu os olhos e espantado sentiu-lhe o cheiro.  

Sunday, July 08, 2012

A História do Rato do Campo e do Rato da cidade



Quando o pai lhe pediu para descer até à sala de estar, Sofia deixou o quarto que cheirava a rosas e a túlipas frescas e demorou-se pelos corredores brancos da enorme vivenda onde vivia. O seu vestido amarelo - pálido esvoaçava como uma ave em equilíbrio ao sabor da corrente.
O seu sítio preferido era um canto, junto à entrada de um dos quartos semi-abandonados à espera de visitantes que sempre tardaram em chegar. Dali, ela via a casa caíada de silêncio, mantendo-se numa sombra estratégica que a isolava de tudo.O cheiro das flores vinha do jardim selvagem, embrutecido pela falta de pessoas que foram deixando a vila ao longo dos anos. O pai de Sofia fora um dos que ficara, quando a mulher morrera ele fechara-se atrás das cortinas da casa, como se de si próprio fechasse as janelas. Sofia crescera naquele ambiente nostálgico e doce, em que tudo eram sombras e expectativa.
Quando era pequena, divertia-se a correr pelos pinhais que se estendiam ao longo de um dos lados da enorme casa, o cheiro fresco das pinhas crepitava como uma fogueira e Sofia sentia a liberdade como um tapete vermelho estendido aos seus pés que ela pisava devagar, com medo de sujar.
Mas agora, quase uma mulher, Sofia fartava-se daquela vida arrastada que levava entre a casa branca e a pequena vila, as mulheres rudes que lhe tapavam o vestido ou a mandavam compôr-se quando ela aparecia esfarrapada das suas explorações às falésias, que enclausuravam a vila na sua pequenez.   Por isso, quando naquela tarde de Verão o pai a chamou à sala e lhe disse que chegara a hora de partir para a cidade, Sofia acentiu. Voltou para fazer a sua mala, e equanto olhava pela janela a ponta de mar, não sentia saudade nem excitação.
Nesse Outono, Sofia partiu para a cidade de comboio. A viagem encheu-lhe o coração como uma bolha em equilibrio, antes de rebentar. Os arranha-céus, as estradas compridas e escuras, os altos candeeiros que cuspiam luz indesejada à noite, tudo isso Sofia detestou desde o primeiro momento. Dentro do seu pequeno apartamento incrustrado num prédio de tijolo, com umas minúsculas escadas de salvação nas traseiras, esforçava-se por não ir à janela e não ver toda aquela amálgama de pessoas e barulho.
Odiava intensamente os sinais de trânsito e os carros pretos e vermelhos que chiavam como loucos. Mas o que ela odiava ainda mais eram as pessoas, a forma como falavam alto e se vestiam de forma exótica. O pai dissera-lhe, antes de partir “Tem cuidado Sofia, as pessoas da cidade são perigosas”. E ela via agora esse perigo, a loucura que destilava da sua respiração. Era como se não existessem regras, tudo era permitido dentro daquele grande jogo de luzes.
No fim do Outono, a cidade encheu-se de chuva miuda e o sol baixo deixava nos prédios cinzentos um tom de mel. Farta de estar escondida, Sofia decidiu dar um passeio até ao parque da cidade. Com a gola do caso subida, foi andando por entre as árvores altas como os prédios, as grandes avenidas do jardim estavam cheias de folhas secas amarelecidas pela chuva e faziam do chão um tapete fofo e silencioso. No coração do jardim, um lago enorme recortava a paisagem aos olhos de Sofia. A água calma, balançava ao som de música que vinha da redondeza, dando-lhe vida.  
E ao som dessa música, um rapaz vestido de cores alegres abria os braços, convidava o vento a entrar pelo casaco. Sofia viu-o de costas e aproximou-se sem se aperceber. Mas ele viu-a e sorriu-lhe “Que bela tarde de Outono”. Ela respodeu-lhe que sim, que era uma bela tarde, sem conseguir tirar os ouvidos da rede daquela música eléctrica. “Vives aqui?” perguntou-lhe ele enquanto dava pequenos pontapés nas pedras e olhava o cimo das árvores, perfeitamente enquadrado com o ambiente. “Sim, desde o início do Outono”.  Rapidamente ele lhe estendeu a mão “Sou o Victor, também cheguei há muito pouco tempo, vivo ali do lado Norte”. Ele falava rápido, mexia-se com aquela pressa que Sofia via nas pessoas, e pela primeira vez gostou daquela falta de regras que o fazia ser tão natural como o simples cair das folhas. 
Deram uma volta pelo parque, sempre num passo acelerado, ele dizia-lhe “Mal posso esperar pela neve, isto deve ser ainda mais bonito tudo branco”. A chuva tornara-se mais intensa mas isso não os impediu de subir ao coreto do jardim, tomar um café numa esplanada com chapéus redondos e mesas de vidro transparente como a água. Só quando a noite chegou ele falou em apanhar o autocarro. Sofia pouco sabia dos transportes públicos, apanhava sempre o mesmo metro para ir para a escola que frequentava. Mas Victor dirigiu-se à paragem do autocarro decidido. “Para ondes vais?” perguntou-lhe, enquanto olhava os horários e os destinos. “Para o centro” disse Sofia a medo e como se isso não resolvesse o problema, disse-lhe a morada. “Ah, mas o 22 pára lá, olha aqui”. Um pouco envergonhada, ela seguiu o dedo dele e consultou o placard, onde estava escrito que o autocarro apareceria dentro de três minutos. As luzes piscavam intensamente, uma mulher de cabelo comprido enrolado numa encharpe baloiçava as mãos dentro de um casaco larguíssimo enquanto dois outros jovens conversavam animadamentee fumavam um cigarro. “Amanhã gostava de ir até ao rio, queres vir comigo?” disse Victor, enquanto olhava o fundo da rua para ver se o seu autocarro lá vinha. “Podemos encontrarmo-nos lá depois do almoço”. Foi só o tempo de Sofia dizer que sim, e desaparecer dentro do autocarro que afinal parava mesmo à porta da sua casa.
No dia seguinte Sofia encontrou-se com Victor ao pé do rio. Na verdade, parecia que ele estava sempre um passo adiantado, como se controlasse o tempo. Pedia a sofia para lhe mostrar a cidade, mas Sofia não conhecia a cidade e foi preciso que ele lha mostrasse sempre de olhos no ar, com a cabeça levantada para o infinito. Percorreram as ruas a pé, o frio escapava-se entre as suas respirações, saboreavam os pequenos cafés pelo caminho, os chocolates quentes que bebiam, as pessoas com quem Victor falava, sempre desejoso de tudo o que lhe aparecia pela frente. Foi em menos de uma semana que Sofia sabia estar irremediavelmente apaixonada por ele. Era uma atracção tão mortal quanto a dum poço fundo cheio de segredos.
Victor apresentou-lhe os seus amigos, convidou-a para os jantares em sua casa e Sofia descobriu-se uma pessoa cheia daquela adrenalina. Falava alegremente com as pessoas, respirava as suas experiências, divertia-se naquelas noites intermináveis onde saíam para dançar e cantar até que o corpo estivesse esgotado. Os dias eram preenchidos, as gotas do dia lambidas até estarem secas e cada vez que Sofia sentia estar mais dentro daquela grande festa, mais se sentia apaixonada por Victor. Quanto mais ela alcançava, mais havia para alcançar.
Os dias avançavam sem piedade, não dando hipotese a qualquer hesitação. E um dia, enquanto estavam na casa de Victor para uma festa, Sofia procurava-o por entre uma pequena multidão que fazia petiscos na cozinha e dançava na sala. Como não o encontrando, perguntou ao seu amigo João, que vinha da varanda. “Está lá em cima, no terraço” disse-lhe João com um ar profundo que Sofia não notou. Agradeceu-lhe e subiu as pequenas escadas da varanda, e encontrou Victor deitado no terraço a olhar as estrelas.
E como não resistindo àquele surrealismo, deitou-se com ele e beijou-o como se tentasse sorver as estrelas daquele Universo. Mas antes que conseguissem dizer algo, João apareceu no terraço e chamou Victor. Sofia deixou-se estar sentada com uma ponta de frio enquanto João esperava impacientemente que Victor descesse as escadas à sua frente. Mas antes de se ir embora sacudiu esse frio e voltou a entrar no quente da festa, decidida a não esperar mais pelas expectativas.
Mas nessa semana algo mudou. Combinaram um cinema numa quinta-feira à noite, mas Victor não apareceu. Ao invés disso, Sofia viu o filme com os seus os seus amigos, de quem agora ela também era amiga. Victor tinha ido a outra festa e não poderia vir hoje. Mas o filme soube-lhe a pouco, Sofia olhava a porta do cinema a cada cinco minutos e consultava o seu telemóvel. Tentou ligar-lhe, mas ele não atendia. A seguir ao cinema decidiram ir a um bar beber um copo. Sofia seguiu-os incapaz de se manter quieta, percorrearam as ruas da cidade quase deserta, por entre as luzes incandescentes. Um frio apoderava-se dela, sem que o permitisse a entrar; João falava-lhe e ela respondia animada, lutando para que aquela nostalgia não a consumisse.
Mas era tarde de mais. Sem dar por isso o Inverno tinha chegado enquanto ela estava distraida e na primeira noite em que nevou, Sofia recebeu um telefonema de Victor a avisá-la que se ia embora da cidade. Lá fora estava tudo branco e quis dizer-lhe isso, mas compreendia que Victor estava sempre à frente, até do Inverno. A neve para ele já tinha chegado.
A festa de despedida ficara adiada para depois do Natal, e por isso ela fez a mala para voltar para casa onde o pai a esperava para a ceia. O Inverno ali era rigoroso, mas sem neve. O vento uivava enquanto Sofia sem nada que a ocupasse, olhava pela janela enquanto os dedos tremiam de falta de adrenalina. Cada segundo que passava, Sofia sentia Victor cada vez mais longe, como se ao estar ali, no fim do Mundo, perdesse a capacidade de se desenvolver e de o agarrar.
O tempo estava parado, no relógio de parede da casa e dolorosamente o Natal chegou mas em tudo Sofia sentia a falta. Quando voltou ao seu pequeno apartamento a neve cobria toda a  entrada do prédio e estendia-se pelas ruas. Os carros passavam e as pessoas andavam debaixo de um nevoeiro de neve. Era como se tivessem desligado o som da cidade e tudo acontecesse num filme mudo. Sofia vestiu-se e apanhou o autocarro à porta de casa, trocou para apanhar o metro e chegou antes de todos à festa de Victor. Ele lá estava, exuberante e preenchido como sempre, cheio de planos e vida. Sofia percebeu que não o veria mais e sentiu com um jacto de consciência a falta que ele lhe ia fazer.
A Primavera chegou quando Sofia não conseguia impedir-se de andar pela cidade. Aprendera de cor os caminhos de Victor e os cafés que ele gostava. Aprendera as pessoas com quem falava e os sitios onde se demorava. E sobretudo aprendera aquela azáfama, sem a qual não conseguia viver. Por isso gastava-se nos caminhos da cidade inesgotável, chegava a casa tão cansada que se atirava para a cama e dormia profundamente. A sua obcessão tornou-se tão forte que deixou de sair com os amigos de Victor que conhecera. Nada a deixava mais proxima dele do que os sussurros da cidade ao seu ouvido. À noite deixava-se ficar pelos cafés da cidade, vestia-se de preto e expunha-se debaixo das luzes dos candeeiros, para ver as sombras dos seus passos.
A única pessoa que continuava a ver era João. Lembrava-lhe Victor, um Victor que ela conseguia agarrar e por isso menos entusiasmante. João levava-a pelos mesmos caminhos, mas cultivava um silêncio que lhe era incómodo. Quando o Verão chegou, João visitou-a no seu apartamento. A cama estava por fazer, a roupa amontoava-se há semanas pelo chão, os livros equilibravam-se em cima do lava-loiça e o microondas cheirava a comida ressequida. Sofia convidou-o a entrar com simpatia, ignorando os seus olhos inquisidores. Sentaram-se na sala, com o calor do Verão a entrar pela janela enquanto Sofia punha a música no volume mais alto e abria uma garrafa de vinho escuro como o sangue.
“Vais voltar para casa, agora que o ano acabou?” perguntou João. Sofia encolheu os ombros “Acho que não”. João fez um compasso de espera, como um jogador de xadrez experiente “ Ele não vai voltar, Sofia”. Mas Sofia olhou-o magoada e disse-lhe “Nem ele nem eu vamos voltar”. E enquanto o calor se entranhava no pequeno apartamento caótico, por entre as persinanas corridas, João beijou-a enquanto afastava a roupa em cima da cama e a deitava com uma paixão nostalgica. Fizeram amor enquanto pela janela entrava, vindo das outras janelas o Come Here, de Kath Bloom. No fim da tarde, João vestiu o seu casaco de cabedal, saltou despreocupado por cima dos CD’s que estavam no chão e deixou Sofia a dormir.
Mas no dia seguinte Sofia apanhou o comboio de volta para a sua vila sem dizer nada a João. O pai recebeu-a com aquela indiferença passiva de sempre e Sofia achou-se num sossego que a magoava e que ela sadicamente procurava. O resto do Verão passou-se entre os infindáveis pores-do-sol, as noites do baloiço com a brisa da noite sem palavras e um cansaço de não fazer nada, que era cada vez mais forte. Num desses dias, João bateu à porta. Amolecidos por aquela vida opaca, ninguém apareceu para abrir e Sofia desceu as escadas e viu João nas suas calças de ganga claras, calmamente à espera no alpendre. Os seus olhos verdes cor-de-limão brilhavam do sol e estendeu-lhe os braços num longo re-encontro.
Sofia mostrou-lhe a casa, o seu quarto branco com a longa cama de casal que tinha sido dos seus pais, a vista para o Mar da janela. Depois sairam para o jardim. O dia estava quente, insuportavelmente quente e sentaram-se num banco do jardim. Estavam sós como se o Mundo tivesse fugido deles. Aquele silêncio tão característico  instalou-se como um anjo de pedra. Sofia pôs-se de pé no banco e sentou-se na dobra mais alta, vendo a cara de João de cima. Ele olhou para ela, com dificuldade franzindo os olhos frágeis e levantou-se também. Deu uns passos no jardim e abriu a torneira da mangueira para por as mãos debaixo de água. “Cuidado, a água está muito quente” disse Sofia. O primeiro jacto de água que saiu estava de facto a ferver, mas em menos de cinco segundos a água gelada da torneira brotou-lhe nas mãos. João pegou na mangueira e atirou-a num relâmpago a Sofia que gritou com a respiração parada. A água gelada escorria-lhe pelas costas enquanto João ria como um louco. Completamente encharcada, o coração de Sofia pulsava de adrenalina enquanto roubava a mangueira de João e o fazia provar daquela delícia. E quando o êxtase se apoderou deles, rindo como delinquentes no jardim João disse-lhe “Ele voltou Sofia”.
Sabia de cor os autocarros, sabia as ligações do metro. Uma senhora com duas crianças parou para lhe perguntar onde ficava o supermercado mais próximo. Sofia deu-lhe a morada e as indicações, sem pestanejar. A vida da cidade corria em câmara lenta, e ela podia apreciar cada detalhe devagar. Apanhou a publicidade à porta do prédio, fez uma refeição rápida que comeu em cima da cama e saiu para ir comprar cigarros. Havia três anos que morava ali, e não pensava ir embora. Adorava a luz do sol reflectido nos vidros dos prédios e a música que vinha das casas. Havia sempre uma guitarra solitária na rua ou uma criança que corria atrás da bola. Os cães espreitavam pelas cortinas quando chovia e a água caia pelos beirais. Com os cigarros pediu também o jornal do dia, ao dono da tabacaria. Em vez de voltar para casa deu a volta ao bairro, e para aproveitar o sol sentou-se num banco dum pequeno jardim a ler o jornal. Não tardou muito a que uma qualquer música inundasse o ambiente, Sofia levantou os olhos para ver de que janela vinha e viu uma rapariga pálida encolhida por detrás dos vidros. Lembrando-se de si própria acenou-lhe. A rapariga correu as cortinas, mas Sofia viu-a a espreitar. Antes de ir embora para casa, Sofia deixou-lhe na caixa do correio um roteiro da cidade, com os melhores sítios para se estar num dia de sol.Nessa noite, como em tantas outras foi até ao rio depois de ter passado por vários bares. As noites eram sempre animadas e Sofia conhecia metade das pessoas daquela zona. Ali se tinha apaixonado vezes sem conta, paixões tão rápidas como fósforos que se desfaziam nas suas mãos. A última era um estudante de cinema mais novo do que ela cinco anos que se mudara para a cidade.No entanto, quando chegou ao Rio, chegou sozinha. E como acontecia em muitas daquelas noites, também João lá estava. A camisa impecável baloiçava com a brisa da noite.
“Onde está a tua namorada?” perguntou-lhe Sofia. “Em casa, a dormir”, respondeu João debruçado no paredão sentindo o cheiro forte a iodo. “Devias estar com ela, sabes”, disse Sofia como dizia tantas vezes. Mas João parecia ter um desapego natural, como se aquele anjo de pedra andasse com ele e nunca o largasse. “Não estou apaixonado” foi a sua resposta honesta. “Mas continuo à espera que isso aconteça, é possível”.E Sofia sabia bem o que era a vida sem paixão. Como muitas vezes acontecia aproximou-se dele e beijaram-se como naquela tarde em que a música entrava sem pedir licença e os virava do avesso.  Passaram a noite juntos naquela mesma cama de Sofia, com a janela aberta sem vergonha da sua excentricidade. De manhã João saiu com a vida presa nas mãos e um fio gelado a escorrer-lhe pelas costas.
E um dia Sofia abriu a caixa de correio e viu uma carta de Victor pousada contra o metal frio. Era um convite de casamento. Sofia abriu-o e viu que a data do casamento seria dali a dois meses, por baixo duma fotografia de Victor e da sua noiva, enfiada numa saia-casaco branco enquanto ele sorria flacidamente apertado pela gravata. O casamento seria no campo, para onde se queriam mudar.

Thursday, January 05, 2012

To be or not to be.

A mãe pos-lhe a mão na cabeça, tocando suavemente os cabelos loiros finos da criança esguia. Era um ritual do qual muitas vezes mais tarde ele se lembraria. A mãe olhou-o e disse-lhe “Um dia vais tocar piano muito bem”. Depois deixava-o ir brincar o dia inteiro pelo areal e pelos bosques cheiros de amoras silvestres. Ele saia de casa de manhã e debaixo da brisa fresca percorria a praia com os seus amigos, caçavam carangueijos e faziam casas nas grutas impregnadas de algas.
Só à noite, depois do banho profundo, se juntava à mãe na grande sala que cheirava a maçãs. Ao pé da janela, o piano espreitava-o. Um ano antes, por curiosidade tinha passado as mãos pelas teclas e ficara deslumbrado com a textura e o som do instrumento. Logo ali, ficara amigo do piano. Mas era pequeno demais para permanecer sentado mais do que cinco minutos, por isso limitava-se a ir tocando nas teclas, dar-se ao prazer de sentir aquela textura e ouvir a mãe dizer-lhe que um dia o tocaria a sério.   

A paixão dele pelo piano, apaixonou-me a mim. Dois dias depois de o conhecer, deitados na cama, ele confessou-me que sempre tinha querido ser pianista. Quando lhe perguntei porque não era, ele suspirou longamente e puxou a roupa para lhe tapar o corpo nú.
“Não é fácil, nunca cheguei a ter aulas quando era criança e agora vai sendo cada vez mais tarde”. Achei aquela resposta estranha e ao mesmo tempo irremediavelmente atraente, na forma como perpetuava um sonho que pretendia matar pelas próprias mãos.
E esse sonho, valia-lhe uma vida dura. Passava pelos sítios sem os adorar, arranjava empregos que o acidificavam por nunca o preencherem e tinha um natural desapontamento para tudo, especialmente pelas pessoas.
Um dia encontrei-me com ele no seu pequeno apartmento. Perto da janela, o piano permanecia intocável e meio-escondido pela luz do entardecer. Ele sentiu-se desprotegido e levou-me para o quarto; essa foi a primeira vez na vida que senti ciúmes.
Como quase tudo na sua vida, também o nosso amor teve um fim quase imediato. Ele não sabia estar comigo e eu não sabia estar com um amor que já não era. Da última vez que gritamos, sai a correr com a certeza que era a última vez que via o piano. Ele, ligou-me mais tarde e uns dias depois, sem qualquer réstia de paixão para pôr em cima da mesa, tomamos um café.
Eu, ainda assim, eu conhecia-o bem o suficiente para saber que a vida dele continuava a mesma miséria de sempre. Com os olhos inchados das insónias, ele olhava para mim à espera de um sonho qualquer, pedindo-me uma lanterna para lhe dizer qual era a direcção do túnel. Disse-lhe para dormir. Disse-lhe para procurar ajuda.
“És a minha única ajuda” disse-me ele. Não o levei a sério, até porque sabia que quando não dormia o fatalismo extremo se apoderava dele. “Que queres fazer?” perguntei-lhe.
E ele começou o seu discurso mais uma vez. O discurso que eu tinha ouvido centenas de vezes durante o curto espaço de tempo que estivera mergulhada no seu coração.
“Já consegui juntar mais algum dinheiro. Vou finalmente ter aulas para aprender a tocar”. Não me mexi um milimetro, consegui nem sequer pestanejar. Depois de um longo silêncio em que tentei que ele percebesse como era repetitivo, sem no entanto ser bem sucedida, levantei-me e fui-me embra.
No dia seguinte ele voltou a procurar-me. A sua figura andrajosa puxava-me a manga da camisa como um miudo e deixei-o entrar na minha casa, ciente de que não tinha um piano para o acalmar.  “Senti saudades” disse-me. Eu continuei sem responder, algo surpreendida. “Porque não falas comigo? Desde ontem que não falas comigo.”
Ponderei durante alguns segundos mas depois disse-lhe que já não aguentava mais aquele discurso repetitivo dele, sobre um sonho que não planeava cumprir. “Para quê?” disse-lhe. “Aprende de uma vez a tocar piano ou então esquece isso de vez. Tu só gostas da ideia de ser pianista.”
Tive a sensação que mesmo que o piano ali estivesse ele teria vergonha de lhe passar as mãos pelas teclas. Não voltei a vê-lo.

Hoje, um ano e sete meses depois recebi uma carta sua.
“Espero que não te importes que te escreva mais uma vez a falar dum assunto repetitivo. Mas este assunto sou eu, não existe mais nada para além disso.
Queria dizer-te que escolhi esquecer a ideia de ser pianista, porque sei (sempre soube) que nunca seria. Sou agora mais honesto para mim próprio e não me alimento de sonhos ridiculos – como tu lhe chamarias”.
Não sou ainda assim mais feliz. Vendi o piano, e deixei de ter a sua companhia à noite, deixei de poder sentir a textura das teclas. Ainda assim não sou mais feliz, tal como não era dantes.“
A carta terminava assim. E ao lado vinha um papel oficial, avisando-me que ele falecera. Eram demasiado covardes para escreverem que ele se tinha suicidado.
E afinal, era a ideia de ser pianista que lhe salvava a vida. 

Friday, December 16, 2011

Mas, para todos os efeitos, continuavam inexperientes.

Ela entrou na sala, mas ele já lá estava. Havia um ruído de fundo que roía como uma traça o background daquela cena. E eles falavam entrecortados, de forma casual, entre as vozes animadas dos outros que por ali andavam. O ruído das vozes impedia-os de ouvirem com nitidez a música que passava na rádio, e que ambos, sem notarem trauteavam com os pés. Até que alguém achou que havia demasiado ruído na sala, e apagou o rádio. No silêncio estreito daquela confusão, a conversa banal entre eles morreu; ouviam o eco das suas próprias vozes. Por isso, pousaram o copo e voltaram para casa, como sempre faziam.

No dia seguinte, a cena repetia-se, monotonamente, sempre com a mesma intensidade frouxa. Estabelecia-se sempre uma conversa causal que não significava nada sem que no entanto, eles se sentissem desconfortáveis. Ela falava um pouco sobre o tempo, sobre as greves da semana, a chatice de ter que ficar até mais tarde no trabalho. Ele falava do bom que era almoçar sem falar de trabalho, falava das férias do Verão e dos livros de banda desenhada. E aceitavam naturalmente esse limite da sua relação – não se pode amar toda a gente. E mantiveram-se casualmente assim por semanas indeferidas, num mar plano e doce, sem que existissem ondas ou tremores. Boiavam um no outro.

Um dia, porém, ele entrou na sala e ela estava a falar sobre o seu baixo. Casualmente, como sempre, ele disse-lhe que também tocava baixo. “Ah, então também gostas de ouvir o que escorre por detrás das músicas?”Ficaram mais do que o costume a trocar várias impressões sobre isso, sem que no entanto, se sentissem subitamente apaixonados um pelo outro. No fim, ele disse “ devíamos experimentar tocar essa música que tu gostas. Eu também sei tocar guitarra, podemos experimentar”.

Ela aceitou de imediato, porque a fascinava aquela simbiose da música partilhada. Tentara algumas vezes, sem muito sucesso. Há sempre muitos sapos a beijar no caminho – fora uma lição que lhe ficara desde pequena.

No dia seguinte, perante uma audiência curiosa eles sentaram-se frente a frente. Antes de começarem, avisaram que eram ambos inexperientes.

Depois as luzes fecharam-se e ela começou a tocar, sentindo-se estranhamente nervosa. Devagar, sem entrar na música, ele começou lentamente a despi-la. Beijou-lhe o pescoço que oscilava naquele tom grave e profundo que só o baixo capta. A audiência perdeu a respiração e congelou-se. A luz baça pousava-se apenas nela e ele continuou de forma sensual a tocar-lhe todas partes do corpo. Há medida que aquele prazer lhe preenchia o corpo, de olhos fechados, a linha de baixo foi ficando mais intensa. E num pequeno clímax, ela abriu os olhos e olhou-o fulminantemente. Ele tirou a camisa que lhe faltava e a guitarra entrou na música. Primeiro devagar, completando aqueles pequenos espaços de som vibrante, depois mais depressa, estendendo-se numa melodia ousada que aumentava as notas dela. E ela gritava, no seu tom baixo, a seu tempo enquanto ele ia acrescentado pedaços irregulares daquele amor que faziam em conjunto. Olhavam-se agora de forma provocatória e simbiótica, enquanto a guitarra se tornava cada vez mais forte, cada vez mais poderosa, sem nunca ameaçar, no entanto, a beleza dos sons repetidos que ela deixava escapar.
E presos àquela inevitável paixão, conjugaram-se ambos para o mesmo fim. Com a mesma força, a guitarra chegou ás mesmas notas do baixo, tocavam agora a mesma melodia; encontraram-se e os seus corpos misturavam-se num prazer demorado e intenso que fazia corar a audiência. Quando a música atingiu o seu auge, eles atingiram o orgasmo mais violento que haviam experimentado: o Amor explodiu e desfragmentou-se em pequenas ondas de prazer que os electrizaram, muito para além de terem desligado os amplificadores.
Quando a última onda de som abandonou a sala, a audiência, envergonhada, aplaudiu timidamente. Outros saíram simplesmente da sala.

Eles vestiram-se, pegaram nos instrumentos e saíram da sala sem trocarem uma palavra. Nunca pensaram, um dia, casualmente fazerem sexo em público.




Friday, September 23, 2011

True to His Own Spirit

Estas ocasiões sempre me deixaram nervosa. Uma vez mais, de janela aberta, estava eu a olhar o espelho e através dele o vestido que repousava na minha cama, impecável. Através do espelho, até parecia bonito.
Era em tudo, um vestido bonito, muito delgado e de um azul-marinho escuro. As linhas eram direitas e subtis, cheias de uma delicadeza marcante. Era em tudo, um vestido bonito.
Exceptuando que não era o meu.

Adiei o tempo, fumando um cigarro à janela de costas para o espelho. O que eu queria mesmo era escapar àquele casamento. Apetecia-me pegar no vestido e ir com ele para a praia, onde ele era apenas bonito, e eu era apenas uma pessoa.
Lá em baixo na sala, estavam à minha espera – eu já o sabia – os elogios e os sorrisos de manteiga, prontos a integrar-me num ambiente fácil e volátil.

E logo eu que não acreditava em elogios nem tão pouco em Amor. E logo eu, que não acreditava em nada a não ser em mim própria.

O meu irmão apareceu à porta do quarto e disse –me: “Não tornes as coisas sempre difíceis. É só um vestido e até te fica bem. Veste-o e vem divertir-te connosco”. Ele desapareceu antes que eu pudesse responder. Até porque ele sabia a resposta.

Tirei um outro cigarro, fechei a porta com algum estrondo e senti uma irritação chegar-se às minhas bochechas inflamadas. Atirei com o vestido ao chão e decidi que não iria a casamento algum, aturar crianças de choro fácil e adultos prontos a beberem para esquecerem os seus próprios casamentos. A realidade era tão transparente que a ideia de por um vestido bonito para tapar tudo aquilo me pareceu insuportável de mais.

A realidade era tão feia como as pessoas e os sítios. Atravessei a casa sem ninguém dar por mim e sai pela porta do fundo. Caminhei até ao mar, e por ali fiquei a ver as ondas e ouvir o vento zumbir-me aos ouvidos que estava sozinha.

Ao ondular nas dunas frias de fim de tarde completamente à deriva e com um peso morto no lugar onde antes costumava estar o meu coração, dei-me conta que a solidão estava mais comigo do que eu própria. Como um relógio cujo tic-tac era audível até quando eu dormia.

Reparei por isso numa rapariga mais velha que sentada num estrado de madeira lia um livro, apesar do vento irregular que lhe levantava as páginas. Quando me aproximei, reparei que ela não era tão nova quanto me parecera ao longe. Estendeu-me um cigarro e disse-me “ Que estás aqui a fazer? Não devias estar a aproveitar este fim de noite?” Usualmente, esta teria sido a frase que me faria deixar a conversa imediatamente, mas desta vez sentei-me e disse-lhe “ Estou a aproveitá-la”. Ela forçou um sorriso que nada tinha de elogioso. “Parece-me que estás mais a desperdiçar as oportunidades da vida. Que esperas encontrar aqui nesta praia deserta?”. As ondas, o som o mar, esta pequena liberdade de ser tudo – pensei eu. “ A minha solidão” respondi-lhe envergonhada.
Ela fechou o livro meio impaciente e olhou-me de alto a baixo, num misto de compaixão e fúria que nunca tinha sentido antes. “As pessoas não estão aqui nesta praia. A vida não está aqui, está lá fora. As vidas dos livros são para os velhos”.   Senti um nó profundo na minha garganta e pela primeira vez em anos achei que as lágrimas me iam saltar dos olhos. Fiz um esforço hercúleo para que isso não acontecesse e a minha garganta continuou silenciosa. Sentia que tudo aquilo era demais para mim como um cruzamento demasiado caótico onde eu era forçada a escolher um caminho ou a ser pisada pelos que me seguiam de perto. Quando me levantei, estava em mim um desespero tão grande que a ideia de o afogar naquelas ondas me pareceu verdadeiramente plausível.

Quando cheguei a casa, já não estava lá ninguém. Devagar subi as escadas, vesti o vestido azul-marinho, maquilhei-me e juntei-me à festa do casamento. O meu irmão guardara-me um lugar na mesa do jantar e quando chegamos à sobremesa era como se eu estivesse lá estado desde sempre. As bebidas iam e vinham, a música barata fazia-me trautear o pé e considerei até ir dançar um pouco. Afinal eu até era capaz de me enganar, e o meu vestido enganava muito bem. Quando o terceiro rapaz me convidou para dançar, eu dirigi-me à casa de banho, e olhei-me longamente ao espelho: o vestido ficava-me bem. O rapaz esperava-me no fim das escadas e eu disse-lhe “Podemos ir”. Ele voltou-se espantado e reparei que não o era o mesmo que me tinha convidado para dançar. Era incrivelmente bonito e naquele pequeno gelo em que me quedei por os ter confundido reparei que ele estava simplesmente vestido com umas calças pretas e uma camisa que esvoaçava. Timidamente disse-me “não gosto de dançar, desculpa”.

“Confundi-te com outra pessoa, peço desculpa”. A minha pose tinha desaparecido e senti-me patética naquele vestido que me afastava de mim. O que mais me custou foi o olhar vago que ele me lançou. E como eu conhecia aquele olhar, era o meu olhar. Não sabendo bem como, eu tinha voado para o corpo daquele rapaz e ele olhava-me como um espelho. E quando ia tentar salvar-me daquele afogamento, o meu par voltou no seu fato impecável e no seu sorriso brilhante. Ofereceu-me o braço, apontando-me como um deles. Antes de me juntar a ele olhei o rapaz uma vez mais e disse-lhe “podes juntar-te a nós, vem lá para dentro”.

Mas ele já ia no caminho oposto e a última coisa que lhe ouvi foi “ Apetece-me antes ir ver a praia”.

Não voltei a falar com ele. A meio da noite, quando tudo aquilo era demasiado insuportável para mim, despedi-me e fui a pé para casa, descalça e nua de mim mesma. No caminho, senti o perfume das dunas e ondulei-me por ali uma vez mais. Sem surpresa, vi a silhueta dele, sentado na areia. A lua ia alta e iluminava de forma bela a rapariga que lhe fazia companhia, enroscada numa manta velha.


Sunday, September 11, 2011

O Passado é inútil como um trapo

O Beijo. Acordou silenciosamente, tremendo. Era tão reprimido quanto isso. O soalho de madeira estava impecavelmente liso, espalmado pelo luar que inundava o quarto inteiro. Ela dormia na cama de dossel solitária encostada ás almofadas frescas de tecido branco e fresco. Como a sua pele, a sua vida e a sua casa.

Sem fazer barulho, habituado como um gato a caminhar de veludo, desceu as escadas, passou pelo salão e abriu a porta do jardim. Dali, via-se a cidade longínqua e luminosa atravessada por um rio de planície verde.

O jardim não tinha cadeiras e por isso ele caminhou pela sua relva cortada até à pequena vedação que o separava do mundo. Quando lá chegou, ligou-me.

“Sonhei com ela outra vez”. Eram três da manhã, mas como sempre eu não conseguia dormir. Quando o telefone tocou eu já sabia que era ele. De tempos a tempos acontecia-lhe. E de forma casual, respondi-lhe o que sempre lhe dizia: “Amanhã tens de procurá-la.” Como se eu soubesse o remédio que ele precisava. Como se ele tivesse uma doença crónica, que nunca se curava mas era atenuada sempre da mesma maneira.

Houve um silêncio leve na chamada, enquanto eu imaginava o cigarro que ele puxara do bolso, apesar de saber que ele não fumava, assim como o sentia a vaguear à deriva pelo jardim, apesar de saber que estava encostado à vedação e olhava hipnotizado os pontinhos vermelhos e verdes do horizonte.
“ E se ela não é como eu me lembro? E se ela me rejeita?”

Já perdera a conta das vezes que esta conversa se instalara entre nós. E sobretudo, eu sabia o que era esse inútil trapo que é o passado. Ele injectava-se com falta de memória; eu sofria.
“Procura-a amanhã. Tem que ser”. E desliguei.


No dia seguinte, quando acordou, atirou com os lençóis para trás, espreguiçou-se longamente deixando o corpo provar todo o seu entusiasmo. O sol fraco escapava pela fresta da janela de madeira iluminando-lhe as pupilas sem o magoar. Ao pequeno-almoço, ligou-me de novo “Vou procurá-la agora. Á livraria onde ela trabalhava”. Parecia-me tão feliz, que quando desliguei a chamada não pude evitar sentir um golpe profundo de dentro para fora. As minhas entranhas esfaqueavam-me e o resultado era um sangue coagulado ao contrário.

Enquanto o imaginava a escolher a roupa e a acalmar as borboletas que lhe comiam o estômago, decidi ir dar um passeio de bicicleta, como fazia quando era pequena. Meia hora depois, com os braços abertos e o vento a insuflar a minha camisola tinha revivido a história dele – outra vez. Aquela rapariga perfeita, que por entre tantas que ele tinha conhecido, permanecera imaculável nos seus quinze anos. Ele contara-me as horas que passaram no sótão da casa dela, isolados do mundo pelos telhados baixos e a luz castanha filtrada pelas clarabóias mal lavadas. Nesse tempo, o estômago dele estava sempre revirado, acordava a meio da noite estupidamente feliz e apavorado ao mesmo tempo. Lembra-se, disse-me ele, de ter pena de morrer. Ás vezes ficavam deitados no sótão, estendidos em tapetes velhos. Ele via-a por entre as bolhas de sabão enquanto lá fora chovia e o perfume inundava o ar. Falavam das perguntas difíceis e desse futuro que tardava a esperar por eles.
Por isso ela cheirava a chuva e o futuro cheirava a ela.

Com as botas enlameadas e as bochechas vermelhas do calor, desci da bicicleta e sentei-me à beira do ribeiro. Ameaçava chover e pensei que talvez desta vez ele estivesse com ela, como nos filmes.
Mas nem cinco minutos passados, e ouvi passos atrás de mim. Vinha ao meu encontro, ao sítio onde nos encontrávamos sempre. Sentou-se calmo e disse-me o mesmo de sempre “Ela já não se lembra de mim”.

Abracei-o e depois ficamos os dois a ver a água fluir enquanto as nuvens se encavalitavam e tornavam o ar irrespirável.
Ele precisava de sentir o estômago ás voltas de vez em quando, para sentir que estava vivo. Eu precisava de o ver fazer isso, para saber que não valia a pena.