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Saturday, June 12, 2010

A Queda do Muro de Berlim

Como se comer, beber e dormir com roupa quente fosse liberdade. Como se escolher o melhor caminho, fosse liberdade. Como se nunca ver o Mundo fosse liberdade.
Consideras a liberdade como um bem menor, um consumo supérfluo. A metáfora coloca-a debaixo da redoma, como se fosse muito frágil essa liberdade.

Sempre considerei as redomas como prisões e qualquer metáfora como uma grade da jaula. Lamento quebrar essa fina capa de ilusão na qual não ter frio é um nobre propósito. A morte é dura, eu sei. Mas a verdade é que quando morremos, todos temos frio.
E eu conto com um cobertor na alma mais quente do que todas as mantas que arranjas enquanto não atravessas fronteiras, não cedes a tentações e vives numa aldeia confortável onde todos são iguais e escondem a ambição debaixo do tapete.

Eu sei que a liberdade é tenebrosa. Tal como é o silêncio no qual tu desenhas os teus pensamentos e crias a tua filosofia.

Mas a liberdade é isso mesmo, esse caminho rebelde e teimoso. Pode ser medíocre ou pode ser genial.
Mas se não for irresponsável, nunca será livre.

Qualquer coisa que construas sem liberdade, não é verdade.
Não existe.
Todo esse frio que evitas é uma ilusão.

E um dia a verdade acaba sempre por bater à porta.
E mais vale que os muros não estejam lá para te separar dela.


Em memória do Muro que caiu em Berlim, a 16 de Agosto de 2009.

Wednesday, January 13, 2010

Provérbio Dinamarquês

As viagens crescem na minha alma. Medram como as ervas daninhas.
Passei demasiado tempo à janela quando era pequena. Nunca me conseguiram convencer que o interior da casa era o mais interessante. E eu cresci com as estações do ano na cidade. As andorinhas e as nuvens. O cheiro permanente do desconhecido.
O vento.
Às vezes a mochila saía do armário. E eu sentava-me à janela com ela.
Primeiro foi o interior da casa que não me chegava. Depois foi o interior da escola. O interior da faculdade. O interior da cidade. Depois não me chegou o interior das pessoas.
E eu continuei à janela. Às vezes com a mochila. A maior parte das vezes sem ela.
Até que um dia a própria janela não me chegou. Não me contentava com o interior do infinito. Então peguei na mochila e sai da janela. Em busca do fim do mundo.
“ Vais morrer quando encontrares o Fim do Mundo.”

Não vou, não.
“Mais longe do que o fim do mundo está o fim do coração.“

Sunday, May 25, 2008

Flying in a blue dream

Ela era assim. Ele era assim. O Mundo é assim a não ser que nos dobremos sobre ele.
Era uma inconstância contínua de incerteza. Uma extensão de mar de coisas que ficaram sistematicamente por dizer. E cada vez que mais uma se acumulava, era uma perfeição de desencontros. Essas indecisões salgadas tornavam o mar delgado, apetecível.
Ela também era assim. Viam o mar da mesma forma, na mesma frequência. Até mesmo quando era noite, ou o Mundo tinha uma cortina espessa à volta. Viam com os mesmos olhos fechados.
Esta era a visão dele. A sua incerteza estreita. De olhos fechados há o Mundo inteiro ou então o vácuo do Nada. Ela podia estar em qualquer dos dois.
Ele também.
Apenas havia entre eles aquele mar de inconstâncias azuis.
Algures entre essas incertezas infinitas, existia um sonho azul. E nesse sonho as incertezas tornavam-se paralelamente certas, sem o continuarem a ser.
Ele só não sabia voar nesse sonho. Nem ela.
Alice

Monday, April 21, 2008

Ás vezes

Ás vezes. O pássaro voa preso ao vento. Do mar recebe a luz do fundo, do verde escuro. O vento gira e canta. As nuvens prendem-se no céu. O magnetismo suspende-as no cenário do pássaro que se mantém num equilíbrio vitalício. As cordas de som vibram no horizonte cinzento de continuidade. Ás vezes.
Ás vezes.
O pássaro é feliz. Porque a felicidade é o verde e o cinzento. É a maresia do vento e a continuidade do equilíbrio. A liberdade da vibração do vento.
Ás vezes será infeliz, quando tudo isto lhe falta.
Ás vezes.
Ás vezes gostava de arrancar o meu coração, e amarrá-lo ao pássaro. Confiar nele a eternidade duma busca louca. E lógica.
Porque o meu coração nasceu sem asas. E ás vezes eu sou o pássaro morto que voa sob mar de terra.
Alice