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Saturday, January 01, 2011

Retrospectiva

“Não penses demais – disse-me ele tanta vez”


Numero dois da rua. Estava à porta do prédio, em Hotel de Ville. Paris.
Íamos de mãos dadas pela rua, o tempo frio arrefecia os corações mais fracos e a neve espreitava por entre as nuvens, pronta a descer sobre nós. Quando de repente paramos à frente daquele prédio antigo, de arquitectura parisiense onde há algum tempo atrás eu passara uma noite fugaz.

Nessa noite, bebera demais naquele restaurante ao pé do Sena e viera ligeiramente entontecida para a frente da Câmara Municipal de Paris fumar um cigarro e estender a língua em beijos compridos. O tempo estava estranhamente quente, como eu era estranhamente ingénua. Entramos naquela casa, mesmo ali ao lado e antes de me afundar na cama de penas e nas almofadas de veludo da cama dele, lembro-me que espreitei pela janela e vi um dos campanários da Notre Damme. Nessa altura não me apercebi que era a Notre Damme que me estava a ver a mim, do seu campanário.
E não demorou muito a que esse meu amor eterno me expulsasse de sua vida. Na verdade, foi nessa mesma noite. Depois de fazermos amor e de me enterrar naquele veludo vermelho, que ele me puxou para fora e de rompante abriu a porta.

Silêncio. Abri as mãos e senti a minha pele gelada na Primavera de Paris. O vão da escada estava escuro e aos apalpões atingi o interruptor e quase por magnetismo acendi-o. Á minha frente estava uma rapariga nua e desgrenhada, parada no meio da escada a olhar para mim com uns grandes olhos fundos.
Com o horror a percorrer a minha consciência, percebi que era Eu. Reflectida no espelho do elevador. E quando comecei a agarrar nas minhas roupas que ele tinha atirado para o chão, ouvi passos na escada. Num ímpeto de sobrevivência, agarrei nos meus trapos e escondi-me dentro do elevador. E foi então que via outra rapariga chegar e tocar à porta. E ele abriu, como se estivesse surpreendido.
“Viu-a pela janela” pensei. E talvez já nada pudesse piorar. Mas podia.

Vesti-me e sai pela mesma porta onde a rapariga tinha entrado e dei-me conta que a madrugada ainda não tinha florescido naquela noite e os ossos enregelaram-se com o orvalho. Esquecera o casaco lá naquele casa e o metro já estava fechado.
Á noite, por Paris estrangeiro, fui tendo frio nas ruas e nas bordas dos prédios. Fui tendo frio nas frestas das praças e à frente da Notre Damme, onde humildemente me prostrei. Fui tendo frio em mim mesma.
E de manhã, acordei ao pé do Sena, enroscada num banco ao pé dum sem abrigo qualquer. Agora também eu era um qualquer.

Agora de mãos dadas com o meu amor à porta daquele prédio, lembrei-me que continuava a ser uma qualquer. Continuamos parados à porta do prédio, e tudo aquilo me era tão familiar que pensei que podia vomitar. Ele sentiu o meu enjoo e longe de saber o que se passava, sorriu-me, achando que eu estava grávida.

Mas o meu pensamento parou ali à porta e já dali não saiu. Que ingénua que eu era.
E de repente percebi que a ingenuidade era uma doença que me estava grudada na pele, pior que a gravidez.
Porque eu seria sempre incapaz de entender o futuro. A nudez em Paris, podia estar à minha espera, em cada esquina.

Por isso quando chegamos ao metro, despedi-me dele para sempre.

Wednesday, October 06, 2010

La Valse des Monstres

Lembro-me do inferno horrível que fora aquele Verão com calor e falta de esperança, gritos e lágrimas que não saiam da pele, mesmo depois de muitos banhos. Fora uma época tão triste, que nem as janelas nem o vento nem os sonhos em que via a Torre Eiffel da janela do meu quarto me faziam acreditar que algum dia a minha sorte mudaria.


E foi a primeira vez que a vida brincou comigo, porque eu nem sequer gostava especialmente de Paris, mas a minha ânsia em deixar tudo isto fazia-me sonhar constantemente com o ícon de França recortado no meu horizonte. E eu sentia o coração a bater descontrolado, como se de repente eu me apercebesse que afinal Paris estava perto, que eu estava a vê-lo. Bastava-me correr, bastava-me andar, estava tão perto, quase lhe conseguia tocar.

Depois acordava e esta sensação de felicidade custava a despegar-se dos poros. Parecia-me tudo possível, e só quando apanhava o comboio e estava limitada a um horário e ao dinheiro da minha carteira, só aí é que começava a acordar do meu sonho. Porque Paris estava perto, eu é que estava longe.

E foi a segunda vez que a vida brincou comigo: no fim desse Verão foi a minha janela que se aproximou de Paris, quando me apaixonei por um francês trazido a esta cidade deslavada que era Lisboa.

Tentei fugir várias vezes, mas uma noite não resisti mais, e fechei os olhos enquanto me equilibrava numa curta vara sobre o precipício em redor duma total escuridão. Nessa noite, lembro que alguém me fez companhia, quando vim cá fora apanhar ar e focar um pouco o Mundo. Mas tudo aquilo era demais para mim, como se vomitasse os excessos de um corpo que permanecera demasiado tempo estático. E lembro-me que lhe confessei “Isto vai ser a minha desgraça”. Era tudo tão explícito, que aquela sombra riu-se nervosamente e pôs-me a mão no ombro. E a confissão dela foi essa, naquele silêncio estava a sua profunda vontade de se apaixonar como eu.

Nessa última noite, rodei por Lisboa como um fantasma que já cá não está. As sombras do Bairro Alto e de Santos, gritantes e espampanantes abraçavam-me e tocavam-me, como se lhes pudesse passar por osmose um bocado daquela minha paixão que se via em todo o lado. De repente, o Mundo inteiro queria estar apaixonado como eu. De repente toda a gente queria encontrar Paris como eu encontrara.

Mas a minha confissão àquela sombra permanecia como um presságio sob a forma de música. E aquela Valsa começou a tocar para mim nas ruas de Lisboa e sobrepôs-se ao êxtase de paixão que todos cobiçavam. Mas aquela Valsa, a Valsa dos Monstros só eu a ouvia.

E estava fora do sítio, desenquadrada nesta Lisboa deslavada. Como as marcas do amor que eu ia deixando a caminho de Belém.

E tudo correu mal, como a verdade que o meu corpo vomitara àquela sombra. Lisboa parecia enxotar-me, fechou-me a torre de Belém e o Padrão dos Descobrimentos, avariou-me os eléctricos e impediu-me de comer pastéis.

E nesse momento só eu e Lisboa sabíamos que tudo tinha acabado antes de começar.

A terceira vez que vida brincou comigo, foi quando finalmente coloquei os pés na Torre Eiffel e ela devagar olhou para mim, baixou-se e acarinhou-me o cabelo. Via a desilusão no seu esqueleto férreo quando a Valsa dos Monstros voltou a tocar, e eu já sabia que era para mim. E assim, quando cheguei a Paris, cresceu em mim o sonho de ver Lisboa na minha janela.

Quando te conheci e me disseste que gostavas muito de Paris, pensei que a vida se estava a rir de mim mais uma vez. Nessa altura já Lisboa e eu não nos podíamos ver, já éramos demasiado confidentes para nos ouvirmos, ainda que a Valsa nunca mais tivesse tocado. Como seria possível? Seria que a maldita França nunca me deixaria em paz? Não, eu não queria voltar e não queria acender o televisor e ver de novo uma história francesa que não me cabia no corpo desajeitado de Amélie desempregada, que ficou de parte por não ter jeito suficiente para albergar um papel com o qual nasceu.

E sobretudo, eu não queria ouvir aquela Valsa outra vez.

Mas Paris voltava na tua boca. Uma e outra vez. Às vezes eu dizia-te que sim, outras dizia-te que não. E tu esquecias e voltavas a lembrar. A vida não parava de brincar comigo e eu não parava de me indignar com ela.

A Valsa voltou a tocar contigo em Lisboa em noites em que te amava demais e sentia que estavas longe de mim, que pensavas em alguém que não era eu. Á tua janela, a valsa dos Monstros lembrava-me quem eu era e escarnecia cada pedaço horroroso da minha imagem. E Paris vinha no vento e parava na tua janela. E o meu amor desajeitado encolhia-se sobre si mesmo. E eu tapava os ouvidos.

Que Paris se fodesse.

Mas tu abraçavas-me e dizias-me que eram só fantasmas o que eu via naquela janela. Que me amavas demasiado. E tinhas a magia na voz ao baixar o volume da Valsa enquanto eu adormecia no silêncio dos teus braços.

Mas cada vez fui sendo mais desajeitada no meu papel de Amélie e cada vez afastava mais aquele filme da memória da minha carreira. E dei por mim de cigarro descolado do coração. De janela limpa e de amor remendado.

E um dia, sem que eu pudesse prever, a Valsa voltou a tocar. Preencheu a noite e fez eco nos azulejos. Eu acordei surpreendida e percebi que não era para mim que ela tocava, era para ti. E senti-me um monstro.



Wednesday, July 21, 2010

Sem título

Tocou o telefone.
Ele atendeu e disse-me de forma impessoal: “é para ti”.
Já tinha tantas vezes sonhado com esta cena em toda a diversidade de movimentos e palavras que foi como se a estivesse a viver de novo, numa das minhas divagações. Naquele momento, o meu coração não se mexeu do sítio. O telefone tocou como eu previra. A voz dele era impenetrável, como eu previra. A luz era clara e fresca e contrastava com o meu interior negro e roído, como eu mecanicamente previra.
Atendi e a voz nervosa do lado de lá disse-me o que eu já sabia “Ele morreu. Suicidou-se”. Fiz um compasso de espera, como se estivesse em estado de choque e após alguns segundos voluptuosos respondi de forma grave “Vou apanhar o avião para ir para aí”.
Desliguei o telefone e ele olhava para mim, desconfiado. Mas aquela cena era minha. E como protagonista que ganha o papel sem esforço, espremi algumas lágrimas e contei-lhe que um grande amigo tinha morrido. Em França.

Só quando entrei no aeroporto e confirmei o meu voo para Paris no painel, só quando estava sozinha no meio da multidão do aeroporto a meio do dia é que o meu coração tremeu. E de repente entendi que ele tinha morrido. Que desta vez era a sério e ele já não renasceria das minhas divagações para morrer outra vez.
E ainda agora mesmo ele acabara de morrer e eu já sentia saudades da morte dele. Ali em pé, a ler o número do meu voo, tive consciência do longo e frio inferno que me esperava.
Saí para o calor atípico de Paris nesta época como o tinha feito há dois anos atrás. As escadas do avião que desceram para mim perderam o interesse perante a ausência de vento. Aparentemente, o inferno que previ estava a começar de forma avassaladora. Lembrei-me então de apanhar o metro, ao menos esse era um Inferno que tinha sempre existido.
Foi incrível descobrir que me lembrava de todos os pormenores, das estações exactas onde me encontrei com ele dois anos antes. Estávamos os dois vivos nessa altura. Agora ambos nos arrastávamos numa realidade que já não era a vida.
Parei na estação onde era ficava a casa dele. E de repente, lembrei-me que ele podia já não morar ali. Lembrei-me que não sabia nada dele há dois anos. Tudo o que eu sabia era a morte dele todos os dias na minha cabeça e aquele eterno telefonema que finalmente chegara. De repente lembrei-me que eu não sabia nada sobre a realidade.

E por isso, deixei o inferno chegar devagar sobre mim. Saí em Montmartre, e percorri as mesmas ruas daquele dia.
Tudo aquilo me era tão familiar. Eu passara os últimos meses a viver em Paris e ele era o meu amigo francês com quem eu passeava ao domingo de manhã em Pere Lachaise ou que me acompanhava em noites longas de puro álcool para matar as saudades do meu amor que ficara em Portugal. Estávamos tão vivos nesse tempo. Tínhamos amores no peito e ideias elaboradas em fumo de cigarros que faziam corar os pudicos. Visitámos cidades, conhecíamos Paris à noite como mais ninguém e o mundo pulsava-nos nas mãos quentes.
Às vezes ligava para Portugal e as cerejas do meu país sabiam-me a um doce arrastado pelo tempo na voz dele. Falávamos ao telefone à noite. E eu tinha a minha larga janela aberta e um luar intenso a penetrar o meu quarto. E aquela paixão na distância era quase insuportável. Mas enquanto não era insuportável era flamejante. Já por uma vez naqueles meses ele tinha apanhado o avião de surpresa numa sexta-feira e aparecera à minha porta. A paixão viajara até mim, como no meu maior sonho.
Tudo isso fora no passado longínquo do tempo em que vivia em Paris. E éramos os três vivos.

Nada havia que nós não fizéssemos. Nada havia que nós não experimentássemos. Por isso, um dia telefonei-lhe às 3 da manhã e disse-lhe “Vou a Portugal encontrar-me com ele”. A voz ensonada e um mau português responderam-me “Não vais trabalhar?”. “Digo que estava doente. Tenho mesmo de ir, já não aguento mais”.
E fui. Nas asas da paixão do avião. Novamente.
Cheguei a Lisboa às 6 da manhã. O tempo parecia parar para mim, para o marinheiro que cruza os sete mares e não fica com a mesma vida todos os dias.
Passei pelos mesmos caixotes do lixo onde coloquei a minha vida antiga, a caminho da casa dele. Abri a porta devagar, sem fazer barulho. E a única imagem que nunca esperei ver, foi a única que apareceu aos meus olhos quando abri a porta do quarto e vi a rapariga deitada ao seu lado enrolada no sítio onde eu costumava dormir.
Nesse dia o meu coração não tremeu. Não porque tivesse vivido aquela cena muitas vezes, porque nunca a tinha a vivido e decidi naquele segundo que também não a estava a viver. Mas por ironia, ele abriu os olhos naquele momento e neste breve encontro de consciências eu percebi que por desígnio das probabilidades do mundo, aquela fora a única noite em que aquilo acontecera.
Eu fechei a porta do quarto e a porta de casa e a porta do meu coração, todas de seguida. Não senti qualquer barulho, nem ele se mexeu no seu rigor mortis. Nem ele podia.

Só mais tarde, ao poente voltei a vê-lo. Sentamo-nos os dois numa mesa de café. Ele perguntou-me se eu estava triste e eu disse-lhe que sim, que estava triste comigo. E acho que foi a última vez em que fui sincera. Não que tenha mentido mais tarde, não. Mas nunca mais expus directamente o pano do coração às verdades de nenhum mundo.
Portanto especializei-me em dizer mentiras que são verdades. Especializei-me em ser outras pessoas quando preciso. Ainda que esses meus heterónimos me contradigam em tudo e eu seja acusada de uma suja incoerência.
Recordo um enevoado de conversa em que ele me disse que não tinha conseguido evitar a situação. Que muitas coisas tinham acontecido na minha ausência sem ele as controlar. E que a vida monótona o estagnava. Que ele precisava de adrenalina, principalmente da adrenalina errada da noite errada com a pessoa errada no lugar errado.
Não havia nada que eu não pudesse perceber, e sentia-me triste pelo meu posto correcto num outro sítio correcto. Talvez perfeito de mais.
“Ama-la?” perguntei. “Claro que não!”e foi a primeira vez durante a conversa que pareceu estar vivo. “Eu só não queria morrer”.
Pensei que ele podia morrer de outras formas, mas não conseguia evitar estar triste comigo e só comigo. Afinal aquela situação só não me acontecera porque eu era eu. E porque eu limitava-me a fintar a morte para sustentar amores como aquele e o resultado era que perdia sempre e nunca chegava a evitá-la.
Por isso naquela noite, antes de voltar a Paris, dormimos juntos. Uma noite de amor tão intensa como aquela em que ele me visitou em França.
Antes de me aproximar devagar e de o beijar, pensei que ele tinha estado com outra na noite anterior. Por segundos, achei que a tristeza me ia bloquear os lábios. Mas agora era a minha vez de experimentar tudo. Tudo.
E foi muito mais fácil do que eu previra. Ao fim do segundo beijo, já não me interessava o passado. O presente queimava, e só o presente queima realmente.

No dia seguinte voltei a Paris. Sozinha, no meio da multidão, confirmei o número do meu voo e tive a consciência total de que deixava o meu amor sozinho. De novo entregue à sede da morte para ser saciada. Era demasiado insuportável. Não. Nada é demasiado insuportável, com o remédio certo.
Liguei-lhe e espremi umas lágrimas. E quando cheguei a Paris, ele estava à minha espera no aeroporto de Orly. Saímos directamente para o metro e apanhamos a linha que nos levava a Montmartre. Almoçamos enquanto eu lhe contava o que me tinha acontecido em Lisboa. Noutra língua tudo parecia adquirir outro sentido, como se tivesse sido outra pessoa, que não eu a foder o homem que me traiu. E por isso mesmo fez-me um sentido tão grande que nunca mais falei daquela situação em português.
Perguntei-lhe se não ia para casa. Ele olhou-me de lado, com o vento a bater-lhe nos cabelos, enfrentou-me e disse “Não”. Às vezes o mundo cabe numa palavra. E eu decidi experimentar tudo, todos os remédios, todas as curas, todas as doenças.
Por isso, fomos para casa dele e só acordamos de manhã enrolados um no outro. De madrugada, abri os olhos e julguei ver a imagem dele a espreitar-me à porta, desolado. Mas eu não senti rigor mortis nenhum, não havia sequer passado nenhum a recordar.

Nos dois meses que passei em Paris, entendi na perfeição o que significava “não conseguir evitar a situação”. Meia despida de mim passava metade das noites com o meu amigo francês. Ele estava demasiado apaixonado por mim, e era irresistível aquele amor que lhe saltava dos olhos. Como um reflexo de mim que eu nunca teria. Não agora que sabia enfrentar a morte. Às vezes, quando falava com ele ao telefone, na minha janela larga e com o meu luar generoso, pensava que já não sabia o que era o amor.
Mas talvez fosse aquilo o amor. Eu passara demasiado tempo presa a convenções de liberdade.
Adiei vezes sem conta a minha conversa com o francês. Disse-lhe várias vezes para me deixar, que não o amava. Mas aquele amor latino dele não entendia nada que não fosse o desejo e a teimosia. Até que um dia, eu já não tinha credibilidade e todas as noites ele acabava por aparecer. E todas as noites eu acabava por fugir.

Quando finalmente acabou o meu tempo em Paris, fiz a minha mala e deixei uma carta em cima da mesa. Sabia que ele ia achar que era mentira ou mais um dos meus estratagemas para adiar a inevitável loucura que se seguiria pela noite. Sabia que ele não era como eu, que ele acreditava que podia oferecer-me genuinamente o coração e bater-me à porta de joelhos. Eu sabia.
Mas eu queria experimentar tudo. E agora queria experimentar voltar. E se falasse com ele, ele ia cansar-me e esgotar-me e fazer-me acreditar num amor que eu nunca senti.
Por isso, deixei tudo e apanhei o avião de regresso.
Voltei para casa e para ele, com Paris no passado. Sem nervos de Paris.
Queimei os álbuns de recordações e isso era tudo o que era preciso. Ele abraçou-me com saudades.
Com os olhos molhados de alguma vergonha, senti que sentia. E um remorso gigantesco apoderou-se do meu coração e estrangulou-o à beira do colapso. Ficou assim, por uns segundos estático, como meio-morto.
Mas o mundo não é justo, como o amor. O mundo é um lugar horrível cheio de gente horrível, como o amor.
Por isso o meu coração voltou à vida, cheio de electricidade. Ao longe, alguém morria.
Podia não ser exactamente hoje, mas alguém morria.

E esse dia concretizara-se. Fora hoje. Ali estava eu em Montmartre, sem coragem para enfrentar a vida que deixara abruptamente.
Voltei ao metro e caminhei até casa dele. Ele morava ainda no mesmo sítio. A porteira que me telefonara a avisar, estava à minha espera como se não tencionasse deixar o posto sem me punir primeiro.
Disse-me tudo de uma só vez. Que ele nunca acreditara que eu tivesse partido. Que esperou durante meses o meu regresso. Que esperou as minhas cartas, os meus emails, os meus telefonemas. Depois, deixou de pintar.
E de repente, eu lembrei dos quadros que ele pintava.
Ela insistiu que ele deixara de pintar. E quando deixou de pintar, começou a frequentar o médico todas as semanas. Depois, voltara aos quadros, mas todas as pinturas lhe saiam frenéticas, demasiado loucas. Tão loucas que eram desconexas e sem interesse.
E eu lembrei-me dos quadros lindos que ele pintava a meio da noite, quando eu voltava secretamente.
Ela insistiu “Ele deixou de pintar”. E depois terminou “Ontem abriu a janela e saltou”. Depois acrescentou o nome do cemitério.
Mas antes, eu pedi-lhe para ver a casa. Ela sorriu-me maliciosamente e disse “Também deitou a chave fora?”.
E eu permiti-me um raro momento de sinceridade e respondi-lhe “Eu nunca tive a chave”. Lá dentro, encontrei uma casa impecavelmente tratada e arrumada, como se ele esperasse o meu regresso.
Cheguei tarde de mais.
Cheguei tarde de mais a mim mesma.

Trouxe um quadro comigo. Um quadro sem valor nenhum, um dos últimos que ele pintara, uma quantidade de riscos sem nenhum sentido. Senti-me um Dorian Gray com o retrato merecido entre as mãos. Então, deixei que o quadro me torturasse. Deixei que aquela fosse um inferno perpétuo tomado em doses pequenas.
Fechei a porta daquela casa e corri em direcção ao cemitério. Se não me despachasse não teria oportunidade de o ver, uma última vez.
Mas cheguei tarde de mais, outra vez.
O cemitério permanecia calmo e o segurança indicou-me a campa fresca. “O enterro acabou há meia hora” disse-me ele. E de facto a terra húmida envolvia o ambiente num cheiro forte e adocicado.
E eu senti uma tristeza por ele, semelhante àquela que sentira por mim um dia. Quem me dera que ele tivesse sabido evitar a morte. Quem em dera que ele tivesse sabido mudar de coração e fosse mais resistente ao horror do mundo. Quem me dera que ele nunca tivesse acreditado em mim.
Porque eu já não acreditava em mim. Por isso é que estava viva.

Monday, May 10, 2010

Pensamento do dia

Hoje tenho vontade de voltar a Paris e dizer-lhe que ele sempre esteve certo.
Eu não volto a Paris.
Mas hoje sinto o orgulho dele em mim.

Wednesday, December 23, 2009

Paris revisited

A tarde na Notre-Damme foi agradável. Passei todo o tempo a tentar perceber se o Quasimodo me espreitava lá de cima. Definitivamente, eu poderia convencê-lo a descer. Mas como ele não apareceu, comecei a desconfiar que era eu quem deveria subir ao campanário. Afinal as “caras mais feias” de Paris devem estar escondidas.

O Sena estava calmo. Como tudo. Os vidros dos edifícios no entanto explodiam para dentro violentamente.

O pôr-do-sol apareceu no rio. Lembrei-me de Monet, que deixara em Orsay de manhã. Toda aquela impressão nos quadros e eu sem impressão nenhuma. Aquele pôr-do-sol inóspito que alguém ali deixara sobre o rio: Monet nunca pintaria aquilo. Lembrei-me de convidar Monet para o campanário. E abandonei aquelas pontes interminavelmente curtas entre a ilha e o resto da cidade.

A Torre Eiffel conheci de noite. Falou-me de mim, para meu espanto. Falou-me daquele sonho que eu tivera um dia quando a vi da janela do meu quarto. Mas não a dei por muito certa. Afinal, eu não sonho. E ela provavelmente imagina todos os dias um amor longínquo que chegará de longe. E que não sou eu.

Paris visto de cima é ainda maior. As praças, as casas, as ruas. É tudo gigante. E nesse espaço amplo e limpo ecoa a minha solidão.

Gostava de retirar a minha solidão da rua. Em Paris já há demasiados mendigos. Levei-a pela mão até La Defense.
Os turistas ficaram longe a tirar fotografias ao Arco do Triunfo. Eu prefiro aquele Arco. Ali tudo foi reflectido no espaço de vidro. O futuro é assim: honesto.
Não há ali nada que se veja. Tudo o que se vê é o que se sabe. Inúmeras reflexões em espelhos corridos. Mas há música. Jazz.
E uns bancos simples corridos, junto a uma fonte com repuxos altos, como numa igreja ou num teatro. Sentei-me humildemente no primeiro banco.

A música. Uma introspecção num fio de luz claro.
A música claro. Ele tinha a música no cemitério. Eu fora a Pére Lachaise e trouxera a música que ele me dera.

Paris é um excelente sítio para se morrer.

Friday, July 03, 2009

Jim Morrison - 3 Julho 1971

Faz hoje anos que morreu em Paris, Jim Morrison.
Na noite do meu aniversário de maioridade, ofereceram-me "The best of Doors". Revendo-me para sempre na música "People are strange", passei essa noite a ouvi-la. Uma consciência maior desceu sobre mim, mas na altura não sabia explicá-la. Um sentimento de alívio. Conforto. Aconchego.
O Jim Morrison encontrou-me nessa noite em que fiz 18 anos. E ajudou-me a suportá-la e a muitas outras seguintes.
Anos mais tarde, voltaria a encontrar-me com ele. Estava eu em Paris, quando de repente fiquei só no Mundo.
Mas ele estava lá. No cemitério, à minha espera. E encontrei-me com ele ali, nesse local fresco de sombras e penumbras. E na campa dele, disse-me o que era importante. O que valia a pena. E o que desapareceria para sempre. E disse-me que nunca estaria só no Mundo.
Ah, tantas vezes quisera eu ter esta conversa com ele. Mas ele estava demasiado longe, a descansar em Paris. Mas foi justamente em Paris que eu mais precisei dele. E foi justamente em Paris que ele morreu.

Sunday, July 06, 2008

The severed garden

Retira o bolor das minhas costas. As flores sabem que estou só, deixaram de ter pena de mim há muito tempo. Elas sabem que estou deste lado do espelho, numa prisão que me inventaram. Estou tão longe.
Leva-me para longe.
Aqui estou perto demais. Aqui morro todos os dias.
Prefiro as flores que sabem. Prefiro morrer num jardim de indiferença. Os sonhos não compreendem a liquidez do espelho.
As flores sabem que estou só. Ouve-las? Não. Em silêncio, já não têm pena de mim.
Alice - “The Severed Garden- The doors”

Sunday, April 15, 2007

PARIS PARTE I – Jim Morison

Uma semana em Paris. E o retorno a Lisboa.

A viagem para o cemitério de Pere Lachaise foi feita, o mais possível fora do metro. Faz-se de tudo para evitar aqueles túneis sombrios, os rostos tristes. Desde cedo que para mim, a visita a este local se tornara obrigatória. Mais do que saber se Paris é romântico ou se está inundado de luz, se tens lojas caras ou onde estão os famosos estilistas.
A entrada para o cemitério é pequena, e mesmo em frente ao metro. Isso foi a primeira coisa que me espantou quando lá cheguei: a proximidade entre mortos e vivos. Depois de comprar a planta para que me pudesse orientar, percorri finalmente, as ruas do cemitério alheias aos olhos dos visitantes. Aquelas ruas eram ruas calmas, sombrias, quase tenebrosas. E por isso mesmo convidavam a uma adrenalina extra , a um sentimento com dupla personalidade. Por todo o lado se amontoavam campas, de pedra. Imóveis. Fixas e duras. Altos e trabalhados jazigos onde repousavam famílias inteiras. Os nomes quase desapareciam naquela atmosfera escura, de ferro gasto. Por vezes as ruas não eram definidas. Pequenos lances de escadas levam-nos por uma pequena viagem entre as campas, uma aproximação quase tão proibida como excitante. Corvos isolados faziam-se ouvir no horizonte. As copas altas impediam a visão clara. Felizmente. Aquele cemitério com sol límpido perderia certamente todo o seu semblante.
Paralelamente à minha euforia, o jardim guardava os mortos. E que eram isso mesmo: apenas mortos. Nesse aspecto, o meu amor aquele cemitério era tão despropositado como a inquietude das pessoas que não gostam desta proximidade.
Jim Morrinson foi o último que visitei, depois de Oscar Wilde e Edith Piaf. Ficou estrategicamente para o fim, como um adiamento curto que se faz de uma coisa que se gosta. Estranhamente, o meu coração não parava de bater, numa ansiedade que eu própria estranhei. Ninguém mais do que eu sabe que ali só estão mortos. Disse que gostaria de voltar ao cemitério ao fim da tarde, quase noite. E repito. É nessa hora que os mortos se levantam das sepulturas? Pois bem, era mesmo isso que eu queria ver. Poder falar um pouco com o fantasma do Jim Morrinson... Dizer que durante uma noite inteira ouvi sem parar o “People are strange”. Agradecer-lhe por ter sido uma pessoa diferente, um louco. Que me fez ver que as convenções e as regras são para quem tem uma visão demasiado curta. Que me ensinou que na vida, a nossa única amiga é a música. Que me compreendeu, nas alturas e que fui estranha, em que fui diferentes dos outros, em que me via ao espelho vezes sem conta. Que me compreendeu, repito.

No cemitério de Pere Lachaise são estão mortos. Sim, é verdade. E é uma pena.

Wednesday, April 04, 2007

E do longe se faz perto...

Quand il est midi aux États -Unis, le soleil, tout le monde sait,se couche sur la France. Il suffirait de pouvoir aller en France en une minute pour assister au cocher du soleil. Malheureusement la France est bien trop éloignée.

Le Petit Prince