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Tuesday, March 01, 2016

Paralelismo

As nossas vidas foram sempre paralelas. E por isso poucas vezes nos olhamos francamente, cada um de nós ocupado em seguir a sua própria linha reta, aquele fio de linha em que nos equilibramos toscamente. Sempre fizemos tudo para evitar o vexame de cair da linha - acima de tudo em frente a outros ou na presença um do outro. Os anos aperfeiçoaram a nossa mestria de malabaristas, habilidosos como ninguém em escapar à vida. Do nosso trilho pouco nos ficou, a não ser os vários corpos que intersectamos consecutivamente e o odor a nostalgia que nos rodeia.
Hoje, tal como no passado, continuamos os mais parecidos ainda que habitando planetas diferentes a vida corre ao mesmo ritmo e na mesma direção para ambos. É uma espécie de fado que nos toca a toda a hora e nos mantem de mãos dadas seguindo o mesmo rio mas com os pés em margens distintas.


Sunday, July 19, 2015

Insatisfação

I.
Eram 22 horas quando ele finalmente abriu a porta e saiu daquele mundo. Não estranhou a areia grossa nos pés, nem o silêncio rochoso que de um momento para o outro o rodeou. Não estranhou a noite azul púrpura na retina dos seus olhos nem a brisa quase estática, quente e perfumada. Não tinha tempo para estranhar, ocupado como estava a sentir-se feliz.

II.
Fazia já alguns anos que estas pontadas lhe surgiam. Como dores agudas nos ossos, quando o tempo muda, estas pontadas iam e vinham. Ás vezes demoravam-se um pouco mais e ele pensava “tenho de tratar isto”, mas acabava sempre por se fazer esquecer.  Até à proxima pontada. E eventualmente a distância entre pontadas diminuiu o suficiente para lhe começar a doer a toda a hora e ele perceber que as pontadas raras que agora lhe surgiam, eram as de alívio.

III.
O seu amor fora esfriando lentamente, como uma chama ténue de lareira. Ele ficara sentado no sofá a vê-la partir, sem mais combustível para a alimentar. Quando finalmente se extinguiu,  levantou-se, acendeu uma vela e caminhou tropegamente, assustado com a falta de clareza. Quando chegou à porta, pousou a vela e ajoelhou-se de olhos fechados. Devagar deixou os pensamentos que o cutucavam sair em liberdade.

IV.
Quando era novo, há muitos anos atrás, vivera nas montanhas perto do mar, onde a areia era grossa. Para quebrar o silêncio, costumava gritar o seu nome nos desfiladeiros e o som do seu eco enchia-lhe o peito dum amor que ainda não conhecia. Um dia, sufocado pela ausência de Tudo, pegou na mochila e apaixonado, mudou de Mundo.   

Friday, July 17, 2015

Alentejo

Quando o sol se abre, e tudo mostra
E a paisagem a um canto se encosta
Passa direita, no vazio que fica
A verdade lisa.

Monday, June 22, 2015

Eutanásia

Recuso quase tudo o que me dão: comprimidos, conselhos ou maneiras de ver a vida. Não suporto esta maneira bem educada de saber o que se quer para a vida dos outros. Estou bem sozinha, muito obrigada. Quer dizer, ás vezes não estou. Ás vezes, até me apetecia estar com alguém, amar um coração perdido, cozer uma amizade em lume muito brando. Mas não sendo possível – e não o é a maior parte do tempo –fico-me pelo que tenho. É como ver um copo meio cheio que na verdade está mesmo quase vazio. Claro que posso sempre fugir para o campo e deitar-me no fresco chão dos campos de trigo a ouvir o vento embalar as espigas. Mas acabo sempre por guardar esse momento na mais pequena matrioska do meu coração. Ainda não é altura – um dia será. A vida é demasiado fodida para que eu ceda já. Quer dizer, tem de haver algo melhor do que isto, não se pode acabar simplesmente assim. Já se sofre tanto nesta puta de vida sem propósito nenhum, que resistir é a única careta que se pode fazer à morte.  E enquanto resistes, bebe as gotas que sobrarem dos copos esvaziados. Guarda, como diz a Sophia, as “coisas que sabes amar junto ao peito” e deixa que elas te preencham sempre que puderem. Já bastam as saudades, os mortos e os vivos que enterraste, as decisões que te estriparam. Já basta quando tens de assinar um papel a aceitar que a morte é a única solução.  No resto do tempo deixa-me me paz! Não faças da minha vida tua vida. Não faças dos meus pés o teu caminho. A vida é demasiado curta e cheia de tortuosidades para perdermos tempo com aquilo que não nos é verdadeiro. Mas é mesmo.

Sunday, June 21, 2015

Solstício


"Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze"

Sophia de Mello Breyner Andresen