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Wednesday, February 02, 2011

O Cavaleiro da Dinamarca

Era alto forte e loiro
tão loiro que envergonhava o sol
no seu sorriso sentia-se a tristeza
nos seus olhos lia-se a alma.


(lia-se a alma ou o coração?
o coração batia na alma,
alma grande que cabia no coração!)


estendeu-me a mão que eu agarrei
admitindo o medo de fracassar
e ele ajudou-me silenciosamente
não deixando apenas, a solidão ganhar...


Sabia que ele tinha vindo de longe
sabia-o porque ele me viu...
quem está perto de mim não me vê.
E eu via-o porque ele estava longe
e sabia que ele se ia embora
se não, ficava perto...


Nunca soube o seu nome
e apesar de não ter uma espada
salvou-me, vindo do nada
o Cavaleiro da Dinamarca.


(Alice - 2000)

Monday, January 31, 2011

O Fim da Monogamia

Que pessoa desarrumada eu sou! Sempre a minha roupa espalhada pelo chão. Sempre a pôr as coisas erradas nas gavetas erradas.
E tu a dizeres que o casamento se deve guardar como deve ser. Que se deve arrumar todos os dias, dobrar decentemente como uma camisola. Que perfuma o ar, como te perfuma a ti. Um ser limpo de sentimentos tratados.
Mas eu sempre gostei da minha roupa, nao da forma como a trato. E, sejamos sinceros: nao preciso dela limpa, preferi sempre o perfume da noite e os últimos restos de vida que por ali ficam.

Por isso, se queres construir uma relação, nao lhe chames Amor.
Porque Amor nao se cuida, nem se trata nem se retira da monotonia dum sexo interminável a dois.
Aonde tu guardas o Amor, eu guardo o Sexo de Amizade. Onde guardas a Amizade, eu nao guardo nada. Onde tu nao pões nada, ponho eu a Amizade. Esses eternos espaços vazios da casa, preechidos pelas frestas de luz dancante.

Temos um problema de arrumação, temos efectivamente um problema de etiquetagem de gavetas.
E eu sou quem mais sofro, quando chego a casa a horas de jantar e tropeco nas cuecas que deixei no chão da cozinha. Que merda, penso tantas vezes, nao era aqui que eu queria viver.
Que bom seria chegar a casa e ter a loiça limpa e entrar num duche, onde as toalhas cheiram a maresia – o perfume que compraste no supermercado do bairro.
Que bom seria, chegar a casa e ter-te na cama, saber que ali se deita um abraço para os meus ombros mutilados com a permanente tatuagem da morte.
Mas sexo algum se mantém por companhia. E por isso, com os pés presos nas peças de roupa espalhadas e as mãos gordurosas da banca da cozinha que nunca limpo, lembro-me do tempo que gastas a arrumar pateticamente as camisolas nas diferentes prateleiras.
Um dia, vais-te ver a arranjar solucões novas, para acender a chama que se foi esfriando e encontraras mais uma pessoa na tua cama. Esse menage a trois excitante que te lembra que a vida ainda vale a pena – e ao menos podes continuar a planear férias e a fumar à janela com aquela que escolheste para a vida toda.

Porque afinal, o Amor nao dura para sempre.
Mas isso nao é Amor.

Talvez devesses ser monogâmico a espacos desconexos. Mas isso era ter a casa toda desarrumada e tu nao consegues viver sozinho.

Eu prefiro Amar.

Monday, January 24, 2011

A menina dos Fósforos

A porta fechou-se contigo e levou a luz atrás. Como se as lâmpadas tivessem sido sugadas pelo saco que se arrastava na tua mão. E foi a ultima coisa que vi, nesse breve clarão de luminosidade, antes da porta ter assente no trinco e o som ter ecoado na caverna do meu corpo.


 Era Inverno, em Svalbard. E na minha pequena casa enterrada em neve, a luz do sol chegava durante uns magros minutos que batiam no relógio de cada dia. Mas os meus olhos já estavam tão habituados à escuridão que aquela pequena franja de radiação difusa que clareava o ar por entre a camada espessa de nuvens, me fazia arder as pálpebras. Na maioria dos dias, nem sequer acertava com essa hora de luz, a dormir enroscada nas mantas quentes e na beira da lareira.

Deixaste-me uma caixa de fósforos em cima da mesa. E eu que nem precisava deles.
Um dia, enterrada na escuridão do mundo, resolvi acender um e vê-lo prontamente morrer-me nas mãos.
Passei a usá-los para desenhar amores. Amores que minguavam e se extinguiam até se misturarem com a escuridão do presente e a humidade do musgo que me ia crescendo no coração.

E foi quando finalmente a caixa acabou e o Inverno descongelou as árvores e as plantas, que eu saí da manta velha e carcomida, despeguei as minhas pálpebras coladas e que me afundei serenamente no lago que banhava as traseiras da minha casa.

Porque nunca tu exististe.
Foi só um fósforo esquecido no chão que criou uma ilusão a que eu chamava de vida.  

Wednesday, January 12, 2011

Medo

Não pares o meu medo
Ou as minhas lágrimas
Ou a minha estúpida forma de nunca
viver o dia-a-dia para não
ir emagrecendo
nos sonhos.

Não me digas que tenho de me
habituar.
A resignação é o chá das cinco
dos frustrados.

E eu nunca quis morrer.

Por isso não estrangules o meu amor
Com o entendimento
da tua ausência.

Porque Amor é nunca compreender o vazio
Do teu lugar.
E nunca morrer de letargia controlada:
Um qualquer comprimido que inventaram
para fazer do amor uma relação.


Inspirado em Jacques Brel e nas suas considerações sobre o medo. 

Saturday, January 01, 2011

Retrospectiva

“Não penses demais – disse-me ele tanta vez”


Numero dois da rua. Estava à porta do prédio, em Hotel de Ville. Paris.
Íamos de mãos dadas pela rua, o tempo frio arrefecia os corações mais fracos e a neve espreitava por entre as nuvens, pronta a descer sobre nós. Quando de repente paramos à frente daquele prédio antigo, de arquitectura parisiense onde há algum tempo atrás eu passara uma noite fugaz.

Nessa noite, bebera demais naquele restaurante ao pé do Sena e viera ligeiramente entontecida para a frente da Câmara Municipal de Paris fumar um cigarro e estender a língua em beijos compridos. O tempo estava estranhamente quente, como eu era estranhamente ingénua. Entramos naquela casa, mesmo ali ao lado e antes de me afundar na cama de penas e nas almofadas de veludo da cama dele, lembro-me que espreitei pela janela e vi um dos campanários da Notre Damme. Nessa altura não me apercebi que era a Notre Damme que me estava a ver a mim, do seu campanário.
E não demorou muito a que esse meu amor eterno me expulsasse de sua vida. Na verdade, foi nessa mesma noite. Depois de fazermos amor e de me enterrar naquele veludo vermelho, que ele me puxou para fora e de rompante abriu a porta.

Silêncio. Abri as mãos e senti a minha pele gelada na Primavera de Paris. O vão da escada estava escuro e aos apalpões atingi o interruptor e quase por magnetismo acendi-o. Á minha frente estava uma rapariga nua e desgrenhada, parada no meio da escada a olhar para mim com uns grandes olhos fundos.
Com o horror a percorrer a minha consciência, percebi que era Eu. Reflectida no espelho do elevador. E quando comecei a agarrar nas minhas roupas que ele tinha atirado para o chão, ouvi passos na escada. Num ímpeto de sobrevivência, agarrei nos meus trapos e escondi-me dentro do elevador. E foi então que via outra rapariga chegar e tocar à porta. E ele abriu, como se estivesse surpreendido.
“Viu-a pela janela” pensei. E talvez já nada pudesse piorar. Mas podia.

Vesti-me e sai pela mesma porta onde a rapariga tinha entrado e dei-me conta que a madrugada ainda não tinha florescido naquela noite e os ossos enregelaram-se com o orvalho. Esquecera o casaco lá naquele casa e o metro já estava fechado.
Á noite, por Paris estrangeiro, fui tendo frio nas ruas e nas bordas dos prédios. Fui tendo frio nas frestas das praças e à frente da Notre Damme, onde humildemente me prostrei. Fui tendo frio em mim mesma.
E de manhã, acordei ao pé do Sena, enroscada num banco ao pé dum sem abrigo qualquer. Agora também eu era um qualquer.

Agora de mãos dadas com o meu amor à porta daquele prédio, lembrei-me que continuava a ser uma qualquer. Continuamos parados à porta do prédio, e tudo aquilo me era tão familiar que pensei que podia vomitar. Ele sentiu o meu enjoo e longe de saber o que se passava, sorriu-me, achando que eu estava grávida.

Mas o meu pensamento parou ali à porta e já dali não saiu. Que ingénua que eu era.
E de repente percebi que a ingenuidade era uma doença que me estava grudada na pele, pior que a gravidez.
Porque eu seria sempre incapaz de entender o futuro. A nudez em Paris, podia estar à minha espera, em cada esquina.

Por isso quando chegamos ao metro, despedi-me dele para sempre.

Thursday, December 09, 2010

Humpty Dumpty

Ah, os estereotipos! As nuvens escondiam o Sol e a sala mantinha-se também ela fria apesar dos aquecedores estarem no máximo e as bochechas dela estarem a arder. Todas aquelas pessoas escondiam um olhar assustador debaixo dos casacos de simpatia. Ela pelo contrário, escondia a sua paixão na camisola demasiado grossa que a fazia parecer mais gorda, e o resultado era um olhar desadequado do mundo, que fugia pela janela.

O professor chegou e disse uma piada, da qual toda a gente se riu. O humor sempre fora a forma mais barata de comunicação e por isso ela sempre o detestara, mas riu-se também numa patética tentativa de integração.
Não tinha relógio mas começou a perguntar-se que horas seriam. Como um principio de uma tarde interminável.

"Vamos falar sobre os homens e as mulheres hoje! - Quero a vossa opinião: acham que os mulheres se preocupam mais com as aparências do que os homens?" E logo um coro excitado respondeu que sim, que as mulheres gostam de se produzir e que os homens gostam mais de ver futebol. São mais simples os homens e não têm paciência.
E até ele, até ele disse que gostava de ir ás compras sozinho e que não se imaginava a ir com uma mulher.

Ela mantinha-se impenetravelmente calada.
Até ele...

Timidamente disse-lhe " Eu gosto de ir sozinha e sou uma mulher". Ele demorou-se um pouco mais sobre ela, estavam proximos suficientes para ela ver o olhar confuso, talvez até desiludido, pensou ela.
Deu um suspiro interior e as suas bochechas tornaram-se ainda mais vermelhas e sentiu-se ainda mais gorda debaixo da camisola demasiado grossa que não se dera ao trabalho de escolher na loja.
Ele, pelo contrario, estava impecavel na sua roupa casual e o cabelo mal penteado para trás.
Aquele professor roubara-lhe toda a feminialidade num abrir de boca.

Chegara da aldeia para ver o Mundo. Onde estava seria um caminho facil para o casamento e os filhos e ela tinha sonhos. Foram alias esses sonhos que a projectaram em viagens e a trouxeram ali. Nao sem antes abandonar todo o pouco que tinha, rasgar o coração para o cesto dos papeis e limpar da agenda de telefones todos os que insitam em ser Passado.
Não sem antes olhar ao espelho e gostar de ser a mulher que nunca brincara com bonecas.

E agora o espelho era a cara do professor que a ignorava. "Meninas", dizia ele, entusiasmado com o tema "Quantas vezes por semana vão ao cabeleireiro?" E logo um coro excitado lhe respondia e falava da cor do cabelo. Ela esteve para lhe dizer que já tinha pintado o cabelo de azul, mas sentiu que era inapropriado.
Que silencio embaraçoso.
Ah, e os olhos dele continuavam nela: estaria ainda desiludido?
Ela sentiu isso e disse-lhe "Não sou uma mulher tipica, não me faças mais perguntas."

Nesse dia, no caminho para casa foi pisando as folhas do Outono enquanto contava o numero de coisas que fazia igual ao resto das pessoas pelas razões opostas.
E o Mundo era uma peça de teatro sobrelotada e alguém lhe derá um bilhete falso, com um lugar numa cadeira inexistente.

No dia seguinte porém ele apareceu ainda mais sorridente do que o costume e a brancura dirigiu-se para ela. Mas ela não queria saber, por isso despiu a camisola grossa e com o sentimento desapareceu a gordura. O sol lá fora iluminava-lhe a cara e ela gostou do aquecimento das bochechas, apesar de se ter despido dos preconceitos e ser só ela, diferente das outras mulheres.

Porém, ele ignorava o sol e olhava só para ela. "Que insensivel", pensara rapidamente enquanto ele lhe escrevia no papel "Porque achas que os homens hoje em dia se preocupam mais com as aparências?" Ela encolheu os ombros distraida " talvez porque as mulheres começaram a ser mais exigentes. Dantes, bastava a uma mulher ter um homem forte e que fosse um bom pai." Depois parou de baloiça a cadeira e disse-lhe " E tu, que pensas tu?"
Ele arrumou o caderno e nos seus dentes brancos, descansava uma resposta, breve como sempre " Acho que é uma questão de dinheiro, alguém descobriu que vender a moda a homens faz dinheiro."
E pela segunda vez ela pensou que aquilo era mesmo simplista.

Antes de a aula terminar, porém, o professor passou-lhes um poema. Era um poema curto que falava da efemeridade do Amor, das rosas que se amam no lugar de corações. E enquanto ela lia silencosamente e pela primeira vez sentia a pele a respirar, ele deu curtas risadas e abanou a cabeça. As sobrancelhas dela no entanto colocaram-no no lugar e balbuciou "Só não gosto muito de poesia, mas gosto de ti".

Afinal ela era tão feminina como as outras.
E não gostou.

Tuesday, December 07, 2010

A Rosa Azul

Ás vezes, uma certeza claustrofica apanha-me à noite a chorar. Sempre tive o horror da morte a queimar-me a pele. Quando era mais nova, adormecia a pensar no Universo e em quão pequena eu era no meio dele. Depois, vinha uma onda de consciência que me abanava: era como se eu visse o plano de cima e entendesse a efemeridade do meu corpo. E do alto dos meus seis anos, eu percebia que tudo ia terminar, e que um dia não mais eu formularia pensamentos, ou estaria assim deitada a ter consciência das coisas.

Depois a onda de consciência avançava brutalmente sobre mim. E o plano visto de cima parecia apenas mortifero, sem proposito. E eu sentia-me um condenada sem ter tempo de perceber qual é o jogo que se está a jogar.

E perguntava: “porque é que vivemos?”, “o que é o Universo?”, “onde está o Universo e o que existe para além dele?”, “qual é o proposito de tudo isto?”. A minha mae olhava para mim confusa e limitava-se a dizer que um dia na escola eu perceberia. Ou não fosse eu a criança que aprendera a ler aos quatro anos.

Mas eu sabia que não. E por isso, essa onda de consciência horrorizava-me. Bloqueava-me o corpo na cama enquanto a noite lá fora continuava calma, como sempre. As imagens do futuro preenchiam-me o presente e eu só conseguia ver que tudo aquilo que eu tinha, toda aquela vida quotidiana ia acabar. E que eu seria apenas uns quantos ossos espalhados por uma terra qualquer.

Um dia, ainda nos meus seis anos, ganhei coragem para pronunciar o que tanto me angustiava de noite. Cheguei perto da minha mãe e tentei falar-lhe, mas inesperadamente surgiram lágrimas em vez de palavras. Logo a mim, que nunca chorava. “O que se passa?” dsse ela. E eu finalmente expeli os meus pesadelos “Não quero morrer!”.

E ela riu-se.

“Todos nós morremos.”

Lembro-me que nessa altura pensei que se ia ter que lidar com aquela angustia para sempre todas as noites era melhor nunca ter nascido. E porque tinha eu que pensar naquilo? Nenhum dos meus amigos com seis anos pensava na morte.

Comecei então a não deixar avançar a onda de consciência. Porque se tivermos os nossos dias preenchidos e atarefados, se tivermos sonhos e objectivos, a cama encntramo-nos cansados à noite e um dia morremos sem dar conta.

Pensar é um erro. Sim, descobri-o muitos e muitos anos mais tarde. Mas é um erro inato em mim. E mesmo cansada dou por mim sem sono à noite. E os pensamentos têm na minha cabeça o melhor sitio para se desenvolverem até se tornarem disformes e suicidas.

Por isso, depois passei apenas a ceder a uma parte da consciência que descia sobre mim.

Costumava dizer para mim mesma (como se não estivesse sozinha) que ainda faltava muito tempo para que a morte chegasse à minha vida. E que não valia a pena cansar-me em angústias futuras. Depois tentva pensar no mar e no barulho das ondas. E adormecia.

Agora que passaram mais de vinte anos sobre os meus seis já começo a não ter forma de me enganar e em noites de angustias e de choro compulsivo no meio de uma solidão fria até aos ossos, vejo-me confrontada com o meu dilema ancestral.

“Quem sou eu afinal? O que é isto, onde eu estou?Quem são as outras pessoas e o que está dentro delas? Para que é estou aqui?” E tudo parece ( ou efectivamente é) um enorme buraco sem fim. Um buraco da mais profunda solidão. O buraco onde a Alice caiu.

Nada parece fazer sentido.
Porque nada faz sentido.

Acendo a luz. É mais um pesadelo. Um sonho meio desfeito, meio real, com fronteiras dificeis de apalpar. As pequenas logicas vão aos poucos tomando conta de mim.

E a primeira é a que não estás ali, como de costume, para me abraçar e me dizer que o teu amor faz sentido ainda que o Universo seja um caos.

Acordei de um pesadelo para outro. Será sempre assim, até morrer.