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Saturday, August 25, 2012

O Mar


Ao andar pelas ruas pequenas e encarquilhadas tudo voltou à minha lembrança. Aquelas noites de Junho quentes e cheirosas, como se o calor cheirasse ele proprio a manjericos, os vestidos frescos, os lençois sedosos, o sol a espreitar as persinanas de manhã. Os sonhos que existiam mas sobre os quais não se tinha consciência.
A cidade antiga é branca e caótica como um labirinto. As janelas estão todas abertas, a roupa lavada está estendida nas varandas mas fica seca como farrapos de bandeiras de navios naufragados. Passo por baixo dos vários arcos em busca de uma praça, mas não há ordem nenhuma, a não ser aquela ordem natural de se ir acrescentando paredes sem pensar no futuro da casa.
A minha pele está castanha e brilhante, sequiosa por este calor que lhe nasceu nos nervos, os pés sabem o caminho sobre aquela pedra branca silenciosa até ao mar. A maresia está em cada atomo de vento, irrompe os pensamentos e os passos tornam-se salgados. As minhas mãos tacteiam o vazio que de repennte se torna cheio de espaços. E para lá daquelas paredes brancas, o Mar surge como uma risca de azul borrada de esperança.

Thursday, August 23, 2012

O mito do D.Sebastião


Lembro-me que entre nós pouco ou nada foi bom. Talvez uma tarde em que havia Sol e nós fomos passear ao pé do rio. Ou talvez aquele momento difuso em que tu disseste não sei o quê. Aquilo. Qualquer coisa que até foi bonita mas que se escapa da minha memória.
Lá no fundo, é como se fosses apenas um fumo branco e cheiroso, uma nuvem que promete eternamente um D.Sebastião. O anteceder de um concerto onde o nevoeiro possibilita todas as notas de musica, todos os riffs, todos os solos que estão por inventar.  
Tudo entre nós acabou de forma abrupta e encarceradora, numa guerra feita de sangue seco que coagulou nas únicas linhas de comunicação que poderiamos ter tido mas que nunca soubemos usar. Assim morre o amor, dizem os livros. Dizem as pessoas. Até tu me gritaste isso aos ouvidos, quando me atiraste com a porta no meio de anseiras rancorosas. Afinal o amor tinha mais de amargo do que as horas dolorosas passadas à espera que ele chegasse.
Mas não há nada que o tempo não cure. Ou, mais correctamente, não há nada que o tempo não mude. Porque hoje, lembro-me que entre nós pouco ou nada foi bom. Mas  a verdade é que quando afasto o nevoeiro saudosista que me atiram para os olhos, sei que na verdade nunca houve amor nenhum e as boas memórias nunca tiveram chão para medrar, porque nunca as chegamos sequer a semear. 

Sunday, July 08, 2012

A História do Rato do Campo e do Rato da cidade



Quando o pai lhe pediu para descer até à sala de estar, Sofia deixou o quarto que cheirava a rosas e a túlipas frescas e demorou-se pelos corredores brancos da enorme vivenda onde vivia. O seu vestido amarelo - pálido esvoaçava como uma ave em equilíbrio ao sabor da corrente.
O seu sítio preferido era um canto, junto à entrada de um dos quartos semi-abandonados à espera de visitantes que sempre tardaram em chegar. Dali, ela via a casa caíada de silêncio, mantendo-se numa sombra estratégica que a isolava de tudo.O cheiro das flores vinha do jardim selvagem, embrutecido pela falta de pessoas que foram deixando a vila ao longo dos anos. O pai de Sofia fora um dos que ficara, quando a mulher morrera ele fechara-se atrás das cortinas da casa, como se de si próprio fechasse as janelas. Sofia crescera naquele ambiente nostálgico e doce, em que tudo eram sombras e expectativa.
Quando era pequena, divertia-se a correr pelos pinhais que se estendiam ao longo de um dos lados da enorme casa, o cheiro fresco das pinhas crepitava como uma fogueira e Sofia sentia a liberdade como um tapete vermelho estendido aos seus pés que ela pisava devagar, com medo de sujar.
Mas agora, quase uma mulher, Sofia fartava-se daquela vida arrastada que levava entre a casa branca e a pequena vila, as mulheres rudes que lhe tapavam o vestido ou a mandavam compôr-se quando ela aparecia esfarrapada das suas explorações às falésias, que enclausuravam a vila na sua pequenez.   Por isso, quando naquela tarde de Verão o pai a chamou à sala e lhe disse que chegara a hora de partir para a cidade, Sofia acentiu. Voltou para fazer a sua mala, e equanto olhava pela janela a ponta de mar, não sentia saudade nem excitação.
Nesse Outono, Sofia partiu para a cidade de comboio. A viagem encheu-lhe o coração como uma bolha em equilibrio, antes de rebentar. Os arranha-céus, as estradas compridas e escuras, os altos candeeiros que cuspiam luz indesejada à noite, tudo isso Sofia detestou desde o primeiro momento. Dentro do seu pequeno apartamento incrustrado num prédio de tijolo, com umas minúsculas escadas de salvação nas traseiras, esforçava-se por não ir à janela e não ver toda aquela amálgama de pessoas e barulho.
Odiava intensamente os sinais de trânsito e os carros pretos e vermelhos que chiavam como loucos. Mas o que ela odiava ainda mais eram as pessoas, a forma como falavam alto e se vestiam de forma exótica. O pai dissera-lhe, antes de partir “Tem cuidado Sofia, as pessoas da cidade são perigosas”. E ela via agora esse perigo, a loucura que destilava da sua respiração. Era como se não existessem regras, tudo era permitido dentro daquele grande jogo de luzes.
No fim do Outono, a cidade encheu-se de chuva miuda e o sol baixo deixava nos prédios cinzentos um tom de mel. Farta de estar escondida, Sofia decidiu dar um passeio até ao parque da cidade. Com a gola do caso subida, foi andando por entre as árvores altas como os prédios, as grandes avenidas do jardim estavam cheias de folhas secas amarelecidas pela chuva e faziam do chão um tapete fofo e silencioso. No coração do jardim, um lago enorme recortava a paisagem aos olhos de Sofia. A água calma, balançava ao som de música que vinha da redondeza, dando-lhe vida.  
E ao som dessa música, um rapaz vestido de cores alegres abria os braços, convidava o vento a entrar pelo casaco. Sofia viu-o de costas e aproximou-se sem se aperceber. Mas ele viu-a e sorriu-lhe “Que bela tarde de Outono”. Ela respodeu-lhe que sim, que era uma bela tarde, sem conseguir tirar os ouvidos da rede daquela música eléctrica. “Vives aqui?” perguntou-lhe ele enquanto dava pequenos pontapés nas pedras e olhava o cimo das árvores, perfeitamente enquadrado com o ambiente. “Sim, desde o início do Outono”.  Rapidamente ele lhe estendeu a mão “Sou o Victor, também cheguei há muito pouco tempo, vivo ali do lado Norte”. Ele falava rápido, mexia-se com aquela pressa que Sofia via nas pessoas, e pela primeira vez gostou daquela falta de regras que o fazia ser tão natural como o simples cair das folhas. 
Deram uma volta pelo parque, sempre num passo acelerado, ele dizia-lhe “Mal posso esperar pela neve, isto deve ser ainda mais bonito tudo branco”. A chuva tornara-se mais intensa mas isso não os impediu de subir ao coreto do jardim, tomar um café numa esplanada com chapéus redondos e mesas de vidro transparente como a água. Só quando a noite chegou ele falou em apanhar o autocarro. Sofia pouco sabia dos transportes públicos, apanhava sempre o mesmo metro para ir para a escola que frequentava. Mas Victor dirigiu-se à paragem do autocarro decidido. “Para ondes vais?” perguntou-lhe, enquanto olhava os horários e os destinos. “Para o centro” disse Sofia a medo e como se isso não resolvesse o problema, disse-lhe a morada. “Ah, mas o 22 pára lá, olha aqui”. Um pouco envergonhada, ela seguiu o dedo dele e consultou o placard, onde estava escrito que o autocarro apareceria dentro de três minutos. As luzes piscavam intensamente, uma mulher de cabelo comprido enrolado numa encharpe baloiçava as mãos dentro de um casaco larguíssimo enquanto dois outros jovens conversavam animadamentee fumavam um cigarro. “Amanhã gostava de ir até ao rio, queres vir comigo?” disse Victor, enquanto olhava o fundo da rua para ver se o seu autocarro lá vinha. “Podemos encontrarmo-nos lá depois do almoço”. Foi só o tempo de Sofia dizer que sim, e desaparecer dentro do autocarro que afinal parava mesmo à porta da sua casa.
No dia seguinte Sofia encontrou-se com Victor ao pé do rio. Na verdade, parecia que ele estava sempre um passo adiantado, como se controlasse o tempo. Pedia a sofia para lhe mostrar a cidade, mas Sofia não conhecia a cidade e foi preciso que ele lha mostrasse sempre de olhos no ar, com a cabeça levantada para o infinito. Percorreram as ruas a pé, o frio escapava-se entre as suas respirações, saboreavam os pequenos cafés pelo caminho, os chocolates quentes que bebiam, as pessoas com quem Victor falava, sempre desejoso de tudo o que lhe aparecia pela frente. Foi em menos de uma semana que Sofia sabia estar irremediavelmente apaixonada por ele. Era uma atracção tão mortal quanto a dum poço fundo cheio de segredos.
Victor apresentou-lhe os seus amigos, convidou-a para os jantares em sua casa e Sofia descobriu-se uma pessoa cheia daquela adrenalina. Falava alegremente com as pessoas, respirava as suas experiências, divertia-se naquelas noites intermináveis onde saíam para dançar e cantar até que o corpo estivesse esgotado. Os dias eram preenchidos, as gotas do dia lambidas até estarem secas e cada vez que Sofia sentia estar mais dentro daquela grande festa, mais se sentia apaixonada por Victor. Quanto mais ela alcançava, mais havia para alcançar.
Os dias avançavam sem piedade, não dando hipotese a qualquer hesitação. E um dia, enquanto estavam na casa de Victor para uma festa, Sofia procurava-o por entre uma pequena multidão que fazia petiscos na cozinha e dançava na sala. Como não o encontrando, perguntou ao seu amigo João, que vinha da varanda. “Está lá em cima, no terraço” disse-lhe João com um ar profundo que Sofia não notou. Agradeceu-lhe e subiu as pequenas escadas da varanda, e encontrou Victor deitado no terraço a olhar as estrelas.
E como não resistindo àquele surrealismo, deitou-se com ele e beijou-o como se tentasse sorver as estrelas daquele Universo. Mas antes que conseguissem dizer algo, João apareceu no terraço e chamou Victor. Sofia deixou-se estar sentada com uma ponta de frio enquanto João esperava impacientemente que Victor descesse as escadas à sua frente. Mas antes de se ir embora sacudiu esse frio e voltou a entrar no quente da festa, decidida a não esperar mais pelas expectativas.
Mas nessa semana algo mudou. Combinaram um cinema numa quinta-feira à noite, mas Victor não apareceu. Ao invés disso, Sofia viu o filme com os seus os seus amigos, de quem agora ela também era amiga. Victor tinha ido a outra festa e não poderia vir hoje. Mas o filme soube-lhe a pouco, Sofia olhava a porta do cinema a cada cinco minutos e consultava o seu telemóvel. Tentou ligar-lhe, mas ele não atendia. A seguir ao cinema decidiram ir a um bar beber um copo. Sofia seguiu-os incapaz de se manter quieta, percorrearam as ruas da cidade quase deserta, por entre as luzes incandescentes. Um frio apoderava-se dela, sem que o permitisse a entrar; João falava-lhe e ela respondia animada, lutando para que aquela nostalgia não a consumisse.
Mas era tarde de mais. Sem dar por isso o Inverno tinha chegado enquanto ela estava distraida e na primeira noite em que nevou, Sofia recebeu um telefonema de Victor a avisá-la que se ia embora da cidade. Lá fora estava tudo branco e quis dizer-lhe isso, mas compreendia que Victor estava sempre à frente, até do Inverno. A neve para ele já tinha chegado.
A festa de despedida ficara adiada para depois do Natal, e por isso ela fez a mala para voltar para casa onde o pai a esperava para a ceia. O Inverno ali era rigoroso, mas sem neve. O vento uivava enquanto Sofia sem nada que a ocupasse, olhava pela janela enquanto os dedos tremiam de falta de adrenalina. Cada segundo que passava, Sofia sentia Victor cada vez mais longe, como se ao estar ali, no fim do Mundo, perdesse a capacidade de se desenvolver e de o agarrar.
O tempo estava parado, no relógio de parede da casa e dolorosamente o Natal chegou mas em tudo Sofia sentia a falta. Quando voltou ao seu pequeno apartamento a neve cobria toda a  entrada do prédio e estendia-se pelas ruas. Os carros passavam e as pessoas andavam debaixo de um nevoeiro de neve. Era como se tivessem desligado o som da cidade e tudo acontecesse num filme mudo. Sofia vestiu-se e apanhou o autocarro à porta de casa, trocou para apanhar o metro e chegou antes de todos à festa de Victor. Ele lá estava, exuberante e preenchido como sempre, cheio de planos e vida. Sofia percebeu que não o veria mais e sentiu com um jacto de consciência a falta que ele lhe ia fazer.
A Primavera chegou quando Sofia não conseguia impedir-se de andar pela cidade. Aprendera de cor os caminhos de Victor e os cafés que ele gostava. Aprendera as pessoas com quem falava e os sitios onde se demorava. E sobretudo aprendera aquela azáfama, sem a qual não conseguia viver. Por isso gastava-se nos caminhos da cidade inesgotável, chegava a casa tão cansada que se atirava para a cama e dormia profundamente. A sua obcessão tornou-se tão forte que deixou de sair com os amigos de Victor que conhecera. Nada a deixava mais proxima dele do que os sussurros da cidade ao seu ouvido. À noite deixava-se ficar pelos cafés da cidade, vestia-se de preto e expunha-se debaixo das luzes dos candeeiros, para ver as sombras dos seus passos.
A única pessoa que continuava a ver era João. Lembrava-lhe Victor, um Victor que ela conseguia agarrar e por isso menos entusiasmante. João levava-a pelos mesmos caminhos, mas cultivava um silêncio que lhe era incómodo. Quando o Verão chegou, João visitou-a no seu apartamento. A cama estava por fazer, a roupa amontoava-se há semanas pelo chão, os livros equilibravam-se em cima do lava-loiça e o microondas cheirava a comida ressequida. Sofia convidou-o a entrar com simpatia, ignorando os seus olhos inquisidores. Sentaram-se na sala, com o calor do Verão a entrar pela janela enquanto Sofia punha a música no volume mais alto e abria uma garrafa de vinho escuro como o sangue.
“Vais voltar para casa, agora que o ano acabou?” perguntou João. Sofia encolheu os ombros “Acho que não”. João fez um compasso de espera, como um jogador de xadrez experiente “ Ele não vai voltar, Sofia”. Mas Sofia olhou-o magoada e disse-lhe “Nem ele nem eu vamos voltar”. E enquanto o calor se entranhava no pequeno apartamento caótico, por entre as persinanas corridas, João beijou-a enquanto afastava a roupa em cima da cama e a deitava com uma paixão nostalgica. Fizeram amor enquanto pela janela entrava, vindo das outras janelas o Come Here, de Kath Bloom. No fim da tarde, João vestiu o seu casaco de cabedal, saltou despreocupado por cima dos CD’s que estavam no chão e deixou Sofia a dormir.
Mas no dia seguinte Sofia apanhou o comboio de volta para a sua vila sem dizer nada a João. O pai recebeu-a com aquela indiferença passiva de sempre e Sofia achou-se num sossego que a magoava e que ela sadicamente procurava. O resto do Verão passou-se entre os infindáveis pores-do-sol, as noites do baloiço com a brisa da noite sem palavras e um cansaço de não fazer nada, que era cada vez mais forte. Num desses dias, João bateu à porta. Amolecidos por aquela vida opaca, ninguém apareceu para abrir e Sofia desceu as escadas e viu João nas suas calças de ganga claras, calmamente à espera no alpendre. Os seus olhos verdes cor-de-limão brilhavam do sol e estendeu-lhe os braços num longo re-encontro.
Sofia mostrou-lhe a casa, o seu quarto branco com a longa cama de casal que tinha sido dos seus pais, a vista para o Mar da janela. Depois sairam para o jardim. O dia estava quente, insuportavelmente quente e sentaram-se num banco do jardim. Estavam sós como se o Mundo tivesse fugido deles. Aquele silêncio tão característico  instalou-se como um anjo de pedra. Sofia pôs-se de pé no banco e sentou-se na dobra mais alta, vendo a cara de João de cima. Ele olhou para ela, com dificuldade franzindo os olhos frágeis e levantou-se também. Deu uns passos no jardim e abriu a torneira da mangueira para por as mãos debaixo de água. “Cuidado, a água está muito quente” disse Sofia. O primeiro jacto de água que saiu estava de facto a ferver, mas em menos de cinco segundos a água gelada da torneira brotou-lhe nas mãos. João pegou na mangueira e atirou-a num relâmpago a Sofia que gritou com a respiração parada. A água gelada escorria-lhe pelas costas enquanto João ria como um louco. Completamente encharcada, o coração de Sofia pulsava de adrenalina enquanto roubava a mangueira de João e o fazia provar daquela delícia. E quando o êxtase se apoderou deles, rindo como delinquentes no jardim João disse-lhe “Ele voltou Sofia”.
Sabia de cor os autocarros, sabia as ligações do metro. Uma senhora com duas crianças parou para lhe perguntar onde ficava o supermercado mais próximo. Sofia deu-lhe a morada e as indicações, sem pestanejar. A vida da cidade corria em câmara lenta, e ela podia apreciar cada detalhe devagar. Apanhou a publicidade à porta do prédio, fez uma refeição rápida que comeu em cima da cama e saiu para ir comprar cigarros. Havia três anos que morava ali, e não pensava ir embora. Adorava a luz do sol reflectido nos vidros dos prédios e a música que vinha das casas. Havia sempre uma guitarra solitária na rua ou uma criança que corria atrás da bola. Os cães espreitavam pelas cortinas quando chovia e a água caia pelos beirais. Com os cigarros pediu também o jornal do dia, ao dono da tabacaria. Em vez de voltar para casa deu a volta ao bairro, e para aproveitar o sol sentou-se num banco dum pequeno jardim a ler o jornal. Não tardou muito a que uma qualquer música inundasse o ambiente, Sofia levantou os olhos para ver de que janela vinha e viu uma rapariga pálida encolhida por detrás dos vidros. Lembrando-se de si própria acenou-lhe. A rapariga correu as cortinas, mas Sofia viu-a a espreitar. Antes de ir embora para casa, Sofia deixou-lhe na caixa do correio um roteiro da cidade, com os melhores sítios para se estar num dia de sol.Nessa noite, como em tantas outras foi até ao rio depois de ter passado por vários bares. As noites eram sempre animadas e Sofia conhecia metade das pessoas daquela zona. Ali se tinha apaixonado vezes sem conta, paixões tão rápidas como fósforos que se desfaziam nas suas mãos. A última era um estudante de cinema mais novo do que ela cinco anos que se mudara para a cidade.No entanto, quando chegou ao Rio, chegou sozinha. E como acontecia em muitas daquelas noites, também João lá estava. A camisa impecável baloiçava com a brisa da noite.
“Onde está a tua namorada?” perguntou-lhe Sofia. “Em casa, a dormir”, respondeu João debruçado no paredão sentindo o cheiro forte a iodo. “Devias estar com ela, sabes”, disse Sofia como dizia tantas vezes. Mas João parecia ter um desapego natural, como se aquele anjo de pedra andasse com ele e nunca o largasse. “Não estou apaixonado” foi a sua resposta honesta. “Mas continuo à espera que isso aconteça, é possível”.E Sofia sabia bem o que era a vida sem paixão. Como muitas vezes acontecia aproximou-se dele e beijaram-se como naquela tarde em que a música entrava sem pedir licença e os virava do avesso.  Passaram a noite juntos naquela mesma cama de Sofia, com a janela aberta sem vergonha da sua excentricidade. De manhã João saiu com a vida presa nas mãos e um fio gelado a escorrer-lhe pelas costas.
E um dia Sofia abriu a caixa de correio e viu uma carta de Victor pousada contra o metal frio. Era um convite de casamento. Sofia abriu-o e viu que a data do casamento seria dali a dois meses, por baixo duma fotografia de Victor e da sua noiva, enfiada numa saia-casaco branco enquanto ele sorria flacidamente apertado pela gravata. O casamento seria no campo, para onde se queriam mudar.

Thursday, January 05, 2012

To be or not to be.

A mãe pos-lhe a mão na cabeça, tocando suavemente os cabelos loiros finos da criança esguia. Era um ritual do qual muitas vezes mais tarde ele se lembraria. A mãe olhou-o e disse-lhe “Um dia vais tocar piano muito bem”. Depois deixava-o ir brincar o dia inteiro pelo areal e pelos bosques cheiros de amoras silvestres. Ele saia de casa de manhã e debaixo da brisa fresca percorria a praia com os seus amigos, caçavam carangueijos e faziam casas nas grutas impregnadas de algas.
Só à noite, depois do banho profundo, se juntava à mãe na grande sala que cheirava a maçãs. Ao pé da janela, o piano espreitava-o. Um ano antes, por curiosidade tinha passado as mãos pelas teclas e ficara deslumbrado com a textura e o som do instrumento. Logo ali, ficara amigo do piano. Mas era pequeno demais para permanecer sentado mais do que cinco minutos, por isso limitava-se a ir tocando nas teclas, dar-se ao prazer de sentir aquela textura e ouvir a mãe dizer-lhe que um dia o tocaria a sério.   

A paixão dele pelo piano, apaixonou-me a mim. Dois dias depois de o conhecer, deitados na cama, ele confessou-me que sempre tinha querido ser pianista. Quando lhe perguntei porque não era, ele suspirou longamente e puxou a roupa para lhe tapar o corpo nú.
“Não é fácil, nunca cheguei a ter aulas quando era criança e agora vai sendo cada vez mais tarde”. Achei aquela resposta estranha e ao mesmo tempo irremediavelmente atraente, na forma como perpetuava um sonho que pretendia matar pelas próprias mãos.
E esse sonho, valia-lhe uma vida dura. Passava pelos sítios sem os adorar, arranjava empregos que o acidificavam por nunca o preencherem e tinha um natural desapontamento para tudo, especialmente pelas pessoas.
Um dia encontrei-me com ele no seu pequeno apartmento. Perto da janela, o piano permanecia intocável e meio-escondido pela luz do entardecer. Ele sentiu-se desprotegido e levou-me para o quarto; essa foi a primeira vez na vida que senti ciúmes.
Como quase tudo na sua vida, também o nosso amor teve um fim quase imediato. Ele não sabia estar comigo e eu não sabia estar com um amor que já não era. Da última vez que gritamos, sai a correr com a certeza que era a última vez que via o piano. Ele, ligou-me mais tarde e uns dias depois, sem qualquer réstia de paixão para pôr em cima da mesa, tomamos um café.
Eu, ainda assim, eu conhecia-o bem o suficiente para saber que a vida dele continuava a mesma miséria de sempre. Com os olhos inchados das insónias, ele olhava para mim à espera de um sonho qualquer, pedindo-me uma lanterna para lhe dizer qual era a direcção do túnel. Disse-lhe para dormir. Disse-lhe para procurar ajuda.
“És a minha única ajuda” disse-me ele. Não o levei a sério, até porque sabia que quando não dormia o fatalismo extremo se apoderava dele. “Que queres fazer?” perguntei-lhe.
E ele começou o seu discurso mais uma vez. O discurso que eu tinha ouvido centenas de vezes durante o curto espaço de tempo que estivera mergulhada no seu coração.
“Já consegui juntar mais algum dinheiro. Vou finalmente ter aulas para aprender a tocar”. Não me mexi um milimetro, consegui nem sequer pestanejar. Depois de um longo silêncio em que tentei que ele percebesse como era repetitivo, sem no entanto ser bem sucedida, levantei-me e fui-me embra.
No dia seguinte ele voltou a procurar-me. A sua figura andrajosa puxava-me a manga da camisa como um miudo e deixei-o entrar na minha casa, ciente de que não tinha um piano para o acalmar.  “Senti saudades” disse-me. Eu continuei sem responder, algo surpreendida. “Porque não falas comigo? Desde ontem que não falas comigo.”
Ponderei durante alguns segundos mas depois disse-lhe que já não aguentava mais aquele discurso repetitivo dele, sobre um sonho que não planeava cumprir. “Para quê?” disse-lhe. “Aprende de uma vez a tocar piano ou então esquece isso de vez. Tu só gostas da ideia de ser pianista.”
Tive a sensação que mesmo que o piano ali estivesse ele teria vergonha de lhe passar as mãos pelas teclas. Não voltei a vê-lo.

Hoje, um ano e sete meses depois recebi uma carta sua.
“Espero que não te importes que te escreva mais uma vez a falar dum assunto repetitivo. Mas este assunto sou eu, não existe mais nada para além disso.
Queria dizer-te que escolhi esquecer a ideia de ser pianista, porque sei (sempre soube) que nunca seria. Sou agora mais honesto para mim próprio e não me alimento de sonhos ridiculos – como tu lhe chamarias”.
Não sou ainda assim mais feliz. Vendi o piano, e deixei de ter a sua companhia à noite, deixei de poder sentir a textura das teclas. Ainda assim não sou mais feliz, tal como não era dantes.“
A carta terminava assim. E ao lado vinha um papel oficial, avisando-me que ele falecera. Eram demasiado covardes para escreverem que ele se tinha suicidado.
E afinal, era a ideia de ser pianista que lhe salvava a vida. 

Friday, December 16, 2011

Mas, para todos os efeitos, continuavam inexperientes.

Ela entrou na sala, mas ele já lá estava. Havia um ruído de fundo que roía como uma traça o background daquela cena. E eles falavam entrecortados, de forma casual, entre as vozes animadas dos outros que por ali andavam. O ruído das vozes impedia-os de ouvirem com nitidez a música que passava na rádio, e que ambos, sem notarem trauteavam com os pés. Até que alguém achou que havia demasiado ruído na sala, e apagou o rádio. No silêncio estreito daquela confusão, a conversa banal entre eles morreu; ouviam o eco das suas próprias vozes. Por isso, pousaram o copo e voltaram para casa, como sempre faziam.

No dia seguinte, a cena repetia-se, monotonamente, sempre com a mesma intensidade frouxa. Estabelecia-se sempre uma conversa causal que não significava nada sem que no entanto, eles se sentissem desconfortáveis. Ela falava um pouco sobre o tempo, sobre as greves da semana, a chatice de ter que ficar até mais tarde no trabalho. Ele falava do bom que era almoçar sem falar de trabalho, falava das férias do Verão e dos livros de banda desenhada. E aceitavam naturalmente esse limite da sua relação – não se pode amar toda a gente. E mantiveram-se casualmente assim por semanas indeferidas, num mar plano e doce, sem que existissem ondas ou tremores. Boiavam um no outro.

Um dia, porém, ele entrou na sala e ela estava a falar sobre o seu baixo. Casualmente, como sempre, ele disse-lhe que também tocava baixo. “Ah, então também gostas de ouvir o que escorre por detrás das músicas?”Ficaram mais do que o costume a trocar várias impressões sobre isso, sem que no entanto, se sentissem subitamente apaixonados um pelo outro. No fim, ele disse “ devíamos experimentar tocar essa música que tu gostas. Eu também sei tocar guitarra, podemos experimentar”.

Ela aceitou de imediato, porque a fascinava aquela simbiose da música partilhada. Tentara algumas vezes, sem muito sucesso. Há sempre muitos sapos a beijar no caminho – fora uma lição que lhe ficara desde pequena.

No dia seguinte, perante uma audiência curiosa eles sentaram-se frente a frente. Antes de começarem, avisaram que eram ambos inexperientes.

Depois as luzes fecharam-se e ela começou a tocar, sentindo-se estranhamente nervosa. Devagar, sem entrar na música, ele começou lentamente a despi-la. Beijou-lhe o pescoço que oscilava naquele tom grave e profundo que só o baixo capta. A audiência perdeu a respiração e congelou-se. A luz baça pousava-se apenas nela e ele continuou de forma sensual a tocar-lhe todas partes do corpo. Há medida que aquele prazer lhe preenchia o corpo, de olhos fechados, a linha de baixo foi ficando mais intensa. E num pequeno clímax, ela abriu os olhos e olhou-o fulminantemente. Ele tirou a camisa que lhe faltava e a guitarra entrou na música. Primeiro devagar, completando aqueles pequenos espaços de som vibrante, depois mais depressa, estendendo-se numa melodia ousada que aumentava as notas dela. E ela gritava, no seu tom baixo, a seu tempo enquanto ele ia acrescentado pedaços irregulares daquele amor que faziam em conjunto. Olhavam-se agora de forma provocatória e simbiótica, enquanto a guitarra se tornava cada vez mais forte, cada vez mais poderosa, sem nunca ameaçar, no entanto, a beleza dos sons repetidos que ela deixava escapar.
E presos àquela inevitável paixão, conjugaram-se ambos para o mesmo fim. Com a mesma força, a guitarra chegou ás mesmas notas do baixo, tocavam agora a mesma melodia; encontraram-se e os seus corpos misturavam-se num prazer demorado e intenso que fazia corar a audiência. Quando a música atingiu o seu auge, eles atingiram o orgasmo mais violento que haviam experimentado: o Amor explodiu e desfragmentou-se em pequenas ondas de prazer que os electrizaram, muito para além de terem desligado os amplificadores.
Quando a última onda de som abandonou a sala, a audiência, envergonhada, aplaudiu timidamente. Outros saíram simplesmente da sala.

Eles vestiram-se, pegaram nos instrumentos e saíram da sala sem trocarem uma palavra. Nunca pensaram, um dia, casualmente fazerem sexo em público.




Thursday, December 15, 2011

Devolva-me

Foi ás cinco e cinco da tarde que voltei a entrar no meu apartamento. A tarde era uma chuva miúda, a escorrer por entre um dedilhar triste de guitarra.
Ele tinha ficado preso à cadeira do café onde nos costumávamos encontrar há alguns meses atrás, quando estávamos terrivelmente apaixonados um pelo outro, mas nenhum de nós o dizia. Hoje, pouco disséramos, e faláramos tanto.
Sete dias atrás, ele procurara-me, e sem qualquer discurso prévio, disse que me tinha traído. Os seus olhos encheram-se de lágrimas que nunca chegaram a cair. A tarde era de chuva miúda como a de hoje, mas a guitarra ainda não tocava. Felizmente, eu estava sentada, se não teria sido eu a cair e eventualmente salvo algumas lágrimas que se espalhassem pelo chão.
Fora uma frase curta e dita com pouca respiração, o libertar de uma bolha que lhe começara a crescer e com a qual, ele afinal, não sabia viver.
As minhas bolhas, dentro dos meus pulmões ficaram subitamente caladas. Uma névoa de vazio invadiu a minha respiração, como se a cada segundo procurasse uma “não pergunta” para ouvir uma “não reposta”. Senti, como um fio que se corta, a nossa intimidade a fugir-me das mãos.
Sempre pensei que se isto acontecesse um dia, eu poderia finalmente atirar-lhe um vaso, como nos filmes. Mas percebi que isso acontece a quem tem força para pegar no vaso e eu não tinha. Seria preciso talvez actuar aquela cena muitas vezes, para sentir a adrenalina de lhe esmagar a cabeça numa porcelana, e eu era só uma amadora a subir ao palco pela primeira vez.
Ele perguntou-me se eu o podia perdoar. Disse-o sentidamente, sem referir pormenores e acrescentou que continuaria a amar-me, mesmo que eu não o perdoasse.
Mas nessa altura a guitarra começou a fazer-se ouvir e senti ao longe uma janela aberta, de onde se escapava um pássaro. Pedi licença, afastei os vasos delicadamente do caminho e fui embora, pedindo exageradamente desculpa a todas as pessoas que encontrava no caminho.

Quando fiquei sozinha, abateu-se uma tristeza sobre mim e mais tarde nessa noite uma necessidade de vingança. Sempre pensei durante o tempo em que estivéramos juntos, que não tínhamos uma relação – estávamos simplesmente apaixonados. Pela primeira vez perguntei-me quando é aquilo tinha acontecido, quando e com quem.
No dia seguinte quando uma amiga passou pelo meu apartamento e me perguntou se estava tudo bem, menti-lhe envergonhada com o facto de ter estado apaixonada tão profundamente com alguém que me traíra.
Não fazia diferença se ela sabia, mas fazia diferença que fosse eu quem lhe dissesse. Era como se eu fosse uma mulher muçulmana, a pedir desculpa por ter sido violada.
Talvez ela soubesse, pensei eu quando ela se foi embora. Se calhar só tinha vindo para me consolar.
Todo o apartamento me falava dele, toda a minha vida me falava dele. Agora sem ele, teria que redecorar tudo, desde os objectos que estavam em cima da estante à minha pele. Que faria eu com as minhas memórias falsas? Oh, mas não são falsas, era o que ele me diria, que fui tudo um erro. Um terrível engano do momento, uma tentação espontânea, e que afinal somos todos humanos. Mas era a mim que me doía continuamente e de repente pus-me a relembrar qualquer oportunidade que tivera de o trair. E dei por mim a lamentá-la. Devia ser mais humana, pensei eu. Devia cometer mais erros e amar mais.
Hoje no café fora isso exactamente que ele me dissera. Que me contara para que pudesse confiar nele uma outra vez. E que esperava que eu o conseguisse perdoar, porque ele não imaginava a vida sem mim. E antes que ele pudesse terminar a frase em que me dizia que eu era bem melhor que a rapariga com quem tinha estado, respondi-lhe que eu não sabia o que era perdoar. Ele olhou-me confuso.
A não ser que haja perdão por esta vergonha que sinto, terminei eu.
Foi um erro, disse-me ele novamente, quase desesperado. Eu sei, disse-lhe sinceramente. E tu és humano, como todos. Ele anuiu, com as lágrimas finalmente expostas.
Eu também quero ser, disse-lhe. Ele olhou-me espantado.
Por isso, hoje, não compreendo, só sinto.  



Friday, October 28, 2011

Os Fosforos

Acende-se um cigarro no lugar onde costumava ter a boca, os rumores adiantam que já não tenho coracão. Sempre quis ser o Espantalho, e acabei como o Homem de Lata. 

Um dia houve em que parada na estacão de comboios troquei meia duzia de palavras com uma velha que vendia pensos rápidos a cinco vezes menos do que eles custavam. Estava um dia de chuva, sem chover e eu a reparar nos pormenores. Que inferno! – esta minha mania.  Ela tinha um tornozelo ligado e a pele enrugada estava cheia de pequenos pontos altos, enregelados. Ficamos as duas a trocar palavras pequenas enquanto ela me passava os pensos que lhe comprei por o triplo do que eles custam. Nao sei porque fiz isso.
Mas fiz.
E foi ai que ela se agarrou a mim e começou a chorar. E percebi – que Inferno outra vez! – que era agora que a verdadeira esmola saia do meu bolso.
Quando o comboio chegou, ambas direitas na passadeira olhamos em frente. Eu em silêncio, ela com a  voz elevada a pedir que Deus me abencoasse pela minha bondade.
Quando me sentei no lugar soturno da janela cinzenta do comboio, tive vontade de vomitar.

Aquela  criança contava os trocos para comer uma sandes de fiambre na hora de almoço. Lá fora chovia a sério, agua suja como aquela que enchia o copo. E que empurrava o pão para baixo, quando já nao sobrava dinheiro para mais nada.
Sentada nas escadas, comia em silêncio. Chegava-lhe o cheiro do cinzento do céu e das paredes da escola. E dos risos podres à sua volta.
“Era a pobreza a chegar” – pensava. “Espero que se fique pelos meus bolsos.”
Cansada de ter pena de si mesma, ia para casa ler a Menina dos Fósforos. Mas aquela insuportavel mania impressionista gravava-lhe na memória a imagem dos pés gelados e azuis da menina, arrastados pela neve branca ; e o desespero silencioso congelado em clarões luminosos de segundos.
E Invariavelmente, acabava a vomitar.