Sentes isto? Parece que a vida já acabou, que vai
depressa de mais.
Não há cobertores ou camisolas quentes o suficiente para
me aquecer deste frio grotesco que me vai mirrando os ossos. Todos os dias me
parece que o tempo é cada vez mais curto e eu simultaneamente lenta de mais.
Todos os dias me parece que quero sempre de mais, que preciso sempre de mais.
Tu não queres?
Nós só queremos fazer com que valha a pena esta nossa
viagem. Mas assim que paro para tirar uma fotografia da janela, a paisagem já mudou.
O que aconteceu entretanto? É isso que me incomoda, a forma como tudo acontece
nos entretantos. Onde é que eu estou nesse tempo?
Tudo gira descontroladamente. As épocas vão passando sem
que eu as esgote. Sem que eu tenha a sensação que demos tudo o que
tinhamos. E nunca estou preparada para
seguir em frente.
Parece que é sempre de noite, aquele momento em que me
sento na cama de pijama e passo creme nas mãos. Nessa altura dou-me conta que
os lençois vão mudando a cada dia e que a minha pele está diferente e prometo
que no dia seguinte vou ser mais rápida,vou
fazer o que me vem à cabeça enquanto adormeço, que vou prestar atenção.
Mas quando acordo de manhã, já vou atrasada e tudo fica, irremediavelmente,
para trás.
Friday, December 19, 2014
Without the sour the sweet is never as sweet
(Vanilla Sky)
A vida é tão
boa. Mesmo quando é má.
Levanta-te e
caminha, olha em volta.
Tu és dono
de tudo e em ti estão todas as respostas.
Mesmo que haja
dias negros, pensa que não morreste
ainda.
Há uma
chance ainda.
Não me digas
que sou optimista. Logo eu, que estou
tantas vezes
triste. Não percas tanto tempo a pensar
onde falhaste
ou de quem sentes falta:
esqueces-te
de ti.
A vida és
tu.
E claro o
sol, o mar, o cheiro da roupa lavada. As noites de Junho.
Todos os
teus amores.
Enquanto há
vida há sempre um recomeço
Por mais
estreito ou duro ou amargo.
Há sempre
mais uma oportunidade de te levantares
e te
maravilhares com o bater do teu coração.
Deixa para
trás os dias tristes, vai fechando tudo
em caixas.
Near my home there used to be a beautiful lake, but then it was gone.
Did the lake dry up?
No, it just wasn't there anymore. Nothing was there anymore. Not even a dried up lake.
A hole ?
No, a hole would be something. It was nothing.
(Neverending story)
O tempo frio e chuvoso escondia-nos o que podia ser uma cidade linda. Debaixo desta neblina contínua, ela dirigia-se incertamente rápida como finjindo saber exactamente aonde queria ir. Como uma sombra discreta, eu segui-a também para todo o lado, aquecia-lhe as mãos quando ela parava e os dedos esguios se enregelavam como paus secos e sentava-me a seu lado nos bancos das paragens de metro, naqueles breves minutos em que ninguém estava no átrio e se ouvia assustadoramente o som grave do coração dela a ecoar pelas paredes.
Ela, claro não notava a minha presença, há muito tempo já que me habituara à minha mera condição de fantasma. Um tempo houve em que tivera um corpo quente mas isso era agora um passado tão distante que era como se simplesmente nunca tivesse sido.
Ela subia a rua íngreme, o bafo quente saia-lhe da boca como uma labareda tímida, e eu seguia-a como sempre curioso e inquieto. As iluminações de Natal mal se viam debaixo da neblina e indiferente a isso – e a quase tudo, ela continuava a escalar a rua. Parou à porta da igreja onde por breves segundos se deteve. Depois entrou e percorremos lado a lado aqueles corredores de pedra fria e de cheiro a musgo. Outras pessoas foram entretanto chegando e ocupando os vários lugares disponíveis. A meio da igreja ela decidiu também sentar-se. O frio era intenso e mais grotesco que nunca. Sentei-me a seu lado, os olhos dela olhavam para frente, um grupo de crianças com os seus bibes brancos imaculados agrupavam-se junto a um orgão ancestral. Quando o relógio bateu as nove horas as crianças começaram a cantar. As suas vozes frágeis e inocentes encheram a ingreja, e cantavam com tamanha melodia que por momentos o frio desapareceu e uma paz avassaladora nos abraçou. Vi que uma lágrima tímida aparecera nos seus olhos e que ela automaticamente a limpou com a mão. Mas ao fazê-lo mais lágrimas apareceram e as suas mãos deixaram de ser suficientes.
Tinha já passado tanto tempo. No ínicio custou-lhe tudo.
Depois custou-lhe apenas a ausência .
Vi-o em todo o lado, em todas as esquinas
Em todos os passeios, em todas as ondas do mar
Costumava andar pela rua com ele
(lembra-se agora!)
Depois ficou apenas a rua e ausência dele pintada nas paredes
para onde quer que olhasse.
E o tempo passava implacável destruindo tudo,
reduzindo Tudo a Nada.
Passou tanto tempo que se esquecera
que um dia sentira dor e raiva
cada vez que esperava sozinha que o metro chegasse.
E que o vazio que ele lhe deixara era a única
coisa que tinha.
Abriu os olhos e sorriu-me. Sorri-lhe de volta, animado pelo calor das vozes que nos cercavam. E vi o braço dela erguer-se e devagar pousar a sua mão em mim. Debruçou-se e devagar sussurou-me ao ouvido:
Tenho saudades tuas.
Sunday, November 16, 2014
Tentei escrever um texto,
para expelir a minha raiva.
Ou olhar pela janela o dia todo
para me conformar com a tua ausência.
Mas quanto mais os dias passam,
menos tenho para dizer
menos janelas existem à minha volta.
Não sei o que fazer.
Se me enrolo nos cobertores
não consigo dormir.
Se passeio na rua o céu é pesado
e esborracha-me.
A vida tem seguido em frente sem ti.
O Sol não parou de aquecer nem a chuva
de regar as plantas.
E ao fim de todo este tempo
isso é o que mais custa.
Nenhum texto te tráz de volta,
Nenhuma janela me consola.
Esta é a definição da vida por oposição
À morte.
(em memória da Farrusca, e porque o melhor amigo do homem ás vezes é mesmo um cão)
Encontros breves, palavras ligeiras. Rimos e brincamos
quando eramos pequenos, quando a vida era fácil. Quando não havia opiniões de
política, desporto ou economia. A vida era assim: “queres jogar à bola? então
tudo bem”, nunca mais do que isso. Depois, vieram as guerras da adolescência,
os amigos a sério e os inimigos ainda mais a sério. Não era a política que nos
separava, mas o instinto primário. Largados ao acaso, agrupavamo-nos por gostos
musicais, por aparência e beleza ou ausência dela. Uns desprezavam-me porque
não era popular outros sentiam-se irredialvemente atraídos pela mesma razão.
Até que um dia, crescemos definitivamente e olhámos uns para os outros com
olhos de adultos. E agora parece ser tão fácil ver que cada um de nós se
tornaria exactamente no que se tornou. Agora que entendemos as coisas de outra
forma, secalhar julgamos de maneira diferente. Olhar para trás agora pode ser
nostálgico. Parece que de repente as inimizades nasceram apenas na imaturidade dum
contexto infeliz. Mas não te deixes enganar. Se adicionares os teus velhos “amigos”
desses tempos no Facebook, vais ver dentro de uns meses, que eles e tu não
mudaram nada. Que a política e o desporto e economia continuam a não contar para nada. E apenas com teu instinto primário acabas por apagar quem não
interessa. Fisica ou virtualmente é tudo parte da mesma coisa.
A tua ausência enche-me, mata-me devagar como a uma fome
de excessos. Podia eu seres tu, talvez já tenha sido tu, depois de tudo. Agora
sou uma cama vazia, enchida de corpos que não vejo, que caminha à deriva.
Deixei o Kansas para nenhum destino.