Por vezes anseio como uma súplica por um dia de chuva. Nuvens cinzentas, a água corrida que tudo limpa. Há dias em que não suporto o Sol aberto a queimar-me os olhos, a paisagem aberta e escancarada à minha frente. Tudo o que de mal me assola é solto como se o espaço convidasse a que a caixa de pandora se abrisse para sempre. Toda esta claridade é insuportável. Um dia de chuva combina com a minha mágoa, a minha permanente culpa. E a água limpa-me os olhos, é preciso descarregar para seguir em frente. Porque seguir em frente é o único caminho. Mas é impossível seguir em frente com tanto peso nos ombros e os olhos tão abertos por uma claridade que nos mostra os monstros que em nós vivem.
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Sunday, February 06, 2022
Friday, January 14, 2022
Dias maus
Como assim não é para se escrever nos dias maus? Não têm uma fotografia os dias maus? Nos dias bons, estou ocupada a ser feliz, não tenho tempo (nem razão) para escrever. Mas os dias maus… nos dias maus é que tudo anda às voltas cá dentro. Aquele estranho que nos repreende na rua é capaz de nos pôr a duvidar do que valemos. Será que o Mundo estaria melhor sem mim? Talvez não. Mas eu estaria melhor sem o Mundo. Que boas fotografias dão os dias maus ironicamente. É que sem eles, não havia poesia, levantar no dia seguinte não seria tão bom e abraçar o Mundo do qual aceitamos fazer parte, não seria uma descoberta tão excitante. Hoje está um belo dia de Sol, e esse Sol entra pela minha janela, desde na minha mesa e ilumina-me enquanto escrevo.
Thursday, September 23, 2021
Outono
Sabes aquele sentimento de fim de tarde, nuvens douradas do Sol, pés de fora da janela do carro. A rádio passa uma balada de rock e tu sentes que a tua juventude está ali, ali mesmo a um palmo de ser agarrada. Que tudo o que importa foi aquele amor quente e melodioso que sentiste no primeiro Outono de sempre da tua vida. E que a única coisa que continua a importar mesmo e que te faz sentir vivo é uma paixão desmedida, ciumenta, carinhosa, totalitária e absolutamente só. Ai, aquelas tardes! Eram tão longas, prometiam tudo, toda a vida lá cabia. Fomos os mais felizes, durante tantos pequenos segundos de momentos.
Só se vive enquanto se ama, de resto vamos rastejando de dia em dia.
Tuesday, September 14, 2021
Correria do Infinito
Já não consigo parar e escutar o silêncio. É aterrador. Dantes gostava de o ouvir porque era nele que eu me escondia das sombras, ele era a minha Luz, a minha maneira de Ser. Mas agora o silêncio é a minha cara de Monstro colada no espelho, a minha incapacidade de enfrentar o Oráculo. Já não sou tão corajosa como era. Porque já não sou tão inocente como era. Um tempo houve em que a coragem era fácil, porque tudo o que eu precisava era de me ser fiel. Já nessa altura muitos se recusavam a escutar este silêncio, preferiam as cedências. A correria para o infinito. E na minha virgem ignorância zombei da sua falta de dignidade. Mas talvez, vejo agora, talvez eles já tivessem visto os monstros no espelho e a podridão da Vida lhes tivesse chegado ao coração. E nessa aflição de morte começaram a correr sem conseguir ter dignidade para escutar o silêncio. Como eu corro agora, e tal como eles, sem olhar para trás.
Wednesday, July 21, 2021
Filtros de Poesia
Em criança parava para ver a água da chuva a cair nos beirais da escola. Os meus colegas berravam, que a chuva era inoportuna. Mas eu gostava, tanto quanto gostava dos dias de Sol. Cada qual do seu jeito.
Lembro dos vestidos fresco do Verão, de acordar de mansinho com o Sol a espreitar plas frestas, da minha pele a roçar os lençois frescos. Esperava sempre no caminho do comboio, para ver o Aqueduto e os azuleizos coloridos quando ia de carro. Os rituais preenchiam-me e faziam tudo ter sentido, como se as próprias pedras nos ditassem que fazemos todos parte duma grande roda que não pára de girar.
Já mais velha perdi tempo a ver os peixes vermelhos nadar no lago de pedra, olhava as pessoas para perceber que crianças tinham sido. Olhei. Olhei mais do que vivi.
Alturas houve em que a poesia me pesou. Era barreira instransponível entre mim e todos os outros Mundos. E a certeza de que a cadeira vazia do autocarro seria sempre para quem me amasse.
Mas nem assim essa poesia me largou os olhos. Consolava-me com o vento ao fim da tarde, o Mar. E as janelas, todas as janelas em que pudesse sonhar.
Tuesday, July 13, 2021
Hensel ou Gretel?
Somos os escravos que trabalham continuamente para alimentar uma barriga vizinha? Ou somos os escravos obrigados a agradecer a comida que nos dão para engordarmos e justificarmos a nossa existência?
Ah.... que felicidade têm os miúdos que nunca se perderam na floresta...! É que uma vez perdidos, já nada os salva.



