Translate

Monday, April 17, 2023

Saudades dos teus olhos verdes

"Nos semáforos na Rua de Santa Catarina"

Ao menos os teus olhos
permanecem verdes
todo o ano.

Jorge Sousa Braga


Friday, April 14, 2023

Não me consigo lembrar

A morte enche-nos a vida agora. Cheia de vazios, cheia de dúvidas sobre a última vez que vos vi. Cheia de angústias, por não ter havido mais uma vez - e havia tanto, mas tanto para dizer! A morte agora enche-nos a rua, abre-nos a porta, atende-nos o telefone. E enche-nos dum vazio que insufla. Estamos balofos de tanta morte. Cá dentro, tudo faz um eco incrível, não há respostas para nada. Tudo o que se ouve é a minha voz a perguntar ininterruptamente “quando foi a última vez que nos vimos?” E o vazio é exatamente esse fio de luz baço que se forma ao longo das palavras “não me consigo lembrar”.   

Wednesday, April 05, 2023

Piloto Automático

Andava aqui pela vida em piloto automático desde que me deixaste. Deixaste-me sem a roupa que me tapa à noite e sem a poesia que me limpa os olhos. E assim continuei, sempre em frente, sem olhar para os lados e muito menos para trás. Todos os dias colhendo os trigos pela frente sem me permitir a pausar para olhar a flor amarela que nasceu fora de estação e se cruzou comigo. É que sabes, olhar a flor seria permitir-me a sentir a beleza. A sentir alguma coisa que fosse. O passado não volta e eu preciso de continuar a andar para que o passado seja longínquo o mais depressa possível. Mas hoje voltei a ouvir a minha música, e dei-me conta do que perco quando vivo em piloto automático. Com ela chorei e ri-me de felicidade, uma gratidão por ainda me conseguir sentir feliz e mais ainda por ser com esta minha música. É que afinal, não morri de todo. É que afinal ainda estou aqui, o espelho ainda me sorri. A música ainda me pode salvar e assim existe ainda a esperança de que eu seja quem costumava ser.

Sunday, April 02, 2023

Se Deus me visse agora

Se Deus me visse agora,
Talvez me limpasse as lágrimas
que caiem pela minha cara dura e rochosa.
 
Sentávamo-nos os dois frente a frente,
Pernas dobradas, olhos esvaziados
A ver quem morria mais depressa.
 
Duvido que Deus pudesse ajudar-me,
afundado ele próprio nos seus demónios
Um de nós acabaria por meter a pistola na boca
E ter paz.
 
Mas pelo menos, acompanhava-me na minha
Miséria,
enquanto espero a minha vez de morrer.

Monday, May 02, 2022

There's a bluebird in my heart

Lavo a cara de manhã, água fresca a espevitar a vida. Pronta para a guerra, batalha a batalha vamos enfrentando todos os medos, todos os fantamas doces que nos manipulam e nos querem dar a mão para nos sugar a pele dois minutos mais tarde.  As piores guerras são as que parecem brincadeiras de crianças, as que nos derretem por dentro. A pior batalha é aquela onde aprendemos que temos que deixar o coração guardado no cacifo, quieto. A salvo dos inimigos. E que o pior inimigo sou eu, que sorrio e cedo o lugar.

Tuesday, April 19, 2022

Quebra-cabeças

As melhores, mais doces e suaves memórias que tenho são da minha escola primária. Nela, gostava do enorme espaço que tínhamos, terrenho de gravilha onde se assavam castanhas no Outono e dançávamos as marchas populares no início do Verão. Do campo de futebol onde jogávamos ao lencinho e do outro terreno, espaço inculto cheio de mato, um muro de tijolos meio desfeitos e uma árvore enorme, cuja copa nos abrigava em dias de muito calor. Este acho, era o nosso espaço favorito. No início da primavera, saíamos desembestados da porta da nossa sala de aula para o recreio e o ar gentil e morno da manhã acolhia-nos e incitava-nos a explorar. Saltávamos do muro, apanhávamos plantas, imaginávamos mil e uma brincadeiras naquele espaço sem nada e onde nós víamos tanto. Lembro-me de uma mala azul da cor do céu, pequena, que eu usava a tiracolo. Lá dentro, carregava sempre um pequeno lanche para a manhã que era passada na escola. O meu ritual era sempre o mesmo e é disso mesmo que sinto saudade. Gostava de imaginar que fazia um piquenique e por isso sentava-me debaixo da árvore com o meu lanche, uma peça de fruta ou uma bolacha, como se estivesse no campo. Lembro-me de todos estes objetos, do sítio onde me sentava e do cheiro a mato que estava por todo o lado. Era um cheiro de liberdade, de exploração, de tudo o que o futuro prometia. Dentro dessa minha mala, eu punha também todas as noites, um pequeno quebra-cabeças que me tinham oferecido e que depois de comer o lanche de manhã, eu fazia. Por isso, sempre que pego neste quebra-cabeças sinto este cheiro inebriante e um pouco de mim ainda sente o convite para fazer um piquenique e ver o que o futuro me promete. 

Wednesday, March 09, 2022

Para sempre.

Há uns anos vivi durante uns largos meses numa cidade do Sul. Quente, quente como no deserto. No Verão, a cidade estava vazia. As pedras brancas intactas ecoavam um silêncio que não se propagava e que ali ficava preso.  O calor era demasiado insuportável para se viver, por isso o dia era uma espécie de Inferno, onde em fila, os mortos-vivos esperavam. Finalmente quando chegava a madrugada, lembro-me de se levantar uma brisa. Um pequeno arrepio pela pele, o céu ainda escuro mas já claro, dava uma vontade de viver tudo, sair pela janela e voar. Cantar, cantar tudo o que ia cá dentro, amar sem barreiras. Beber-te até acabares. Mas depois o Sol abria-se e esmagava-nos.

Foi num desses Verões que a conheci. A face calma, o sorriso fácil. Partilhamos trabalho, um projeto que se concretizaria no fim do Outono. Para fugir ao calor, eu chegava sempre cedo. Ninguém lá estava, a não ser ela. Sentada numa mesa da esplanada velha. Bebia um café, lia um livro. Ninguém lá estava a não ser eu. Havia qualquer coisa neste quadro que me apertava o coração, mas eu não sabia o quê. Falava com ela, todos os dias partilhávamos o café. A face sempre calma, o sorriso sempre fácil. A certa altura percebi que ela contava com a minha presença. “Ontem não vieste beber café”. Outras vezes perguntava-me se vivia ali sozinha e o que fazia ao tempo. “Sim. Vivo sozinha. Escrevo, escrevo todas as noites num bar ao pé de minha casa”. Um dia sugeriu que fizéssemos companhia uma à outra. Percebi que já há muito tempo pensava nisso. Olhava para mim e via uma solidão semelhante à sua. Mas eu, eu não nunca aprendi a reagir bem às pessoas que me procuravam. Um vulcão acendeu-se instantaneamente no meu coração e um frenesim de fuga se apoderou de mim. Como sempre. A ideia de alguém permanente e colado nas minhas pegadas deixava-me em pânico. O Outono chegou, o projeto cumpriu-se. Depois, um dia deixei repentinamente a cidade e voltei a Lisboa. A vida tinha dado uma grande volta e não tive tempo de me despedir. Nesse Inverno, pensei muitas vezes nela. Será que ainda lá estava na esplanada a beber café? Será que tinha encontrado outra companhia? “Por certo que sim”, pensava eu. “Haverá mais gente”, pensava eu. Mas haveria mesmo? “Tenho de lhe escrever”. Mas não escrevi.

Entretanto chegou a Primavera. Nova vida floria, e também em mim nova vida floriu. Quando me preparei para receber esta nova mudança, abri o computador e li a mensagem que trazia a notícia da sua morte. Tinha tirado a sua própria vida, quando saltou da janela propositadamente. Nunca saberei se a minha companhia lhe teria prolongado a vida ou se todo este xadrez só aconteceu na minha cabeça perturbada por tantas vezes querer saltar da janela. É uma culpa que carregarei para sempre. Quando eu morrer e a encontrar, posso finalmente pedir-lhe desculpa e então saltaremos as duas juntas.

em memória de S.