Translate

Sunday, May 11, 2014

Dez vidas

Meu amigo olha para nós. Passaram-se dez vidas entretanto e tudo está diferente. Houve tantas coisas que deixamos de fazer ou chegamos a fazer na altura errada quando eramos velhos demais. Porque descobrimos que existe o demasiado tarde. Muitas vezes choramos sozinhos, sem chamar ninguém. Olha para nós agora. Tantas vidas passaram que é dificil reconhecer alguma coisa. Reconheces alguma coisa? O mundo está diferente e a maior diferença é a forma como olhamos para ele. Será que algum dia vamos aprender a fazer as coisas na altura certa? Será que vamos algum dia pertencer ao clube do qual estivemos sempre à parte? Meu amigo, eu sei que não. Hoje, depois de mais de dez vidas terem passado por nós eu sei que este é o nosso caminho tortuoso e espantosamente feliz. Talvez já nao tenhamos esperanças ou talvez estejamos agora (mais uma vez tarde de mais) a sentir a constatação do inevitável. Mas sabe bem finalmente admiti-lo. No meio de tanta confusão, esse é o unico padrão que faz sentido.  Porque quando as coisas se tornam duramente insuportaveis e a vida parece um novelo enrolado não é o teu telefonema que eu anseio, mas a sensação de que sempre estivemos juntos enquanto o mundo dá mais uma volta. E quando me apercebo do que somos sinto uma alegria tao grande que penso,
                Meu amigo temos tanta sorte. 

Sunday, February 09, 2014

Aniversário com Sophia

Penélope

Desfaço durante a noite o meu caminho.
Tudo quanto teci não é verdade,
Mas tempo, para ocupar o tempo morto,
E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Coral 

Sunday, January 26, 2014

Os meus all star

Quando comprei aqueles all star tudo regressou como se de um milagre se tratasse: o vento a bater-me no cabelo, as t-shirts frescas de Verão, as horas passadas na rua a falar de nada. O dia estava quente, com aquele calor que sufoca e queima a respiração.  Mas a vida era cinzenta e o bolor começava a apoderar-se terrivelmente de mim. Parecia que ainda não tinha vivido tudo, que era ainda pequena demais para morrer. Quando os calcei, voltou a mim esse sentimento de ser jovem. Usava-os aos fins-de-semana, nas férias. Usava-os quando saia durante a semana depois do jantar. Esperava pelo metro sentada no chão, as pernas dobradas por cima das calças de ganga. Tocava nas solas e sentia aquele breve frenesim de fazer parte de Mundo e ao mesmo tempo ser ignorada por ele. Um dia percebi que ainda não tinha chegado a minha hora e decidi calçá-los definitvamente. Eles moldaram-se sem surpresa e juntos fugimos e vimos cidades estrangeiras, quartos de hotel, autocarros vadios. Vimos tantas ruas e estações de comboios, vimos tanta gente, tantas línguas. De tanto gostar deles, os meus all star começaram a ficar velhos. Apareceram os primeiros rasgões, a borracha da sola foi-se soltando. Primeiro, deixei de os poder usar no Inverno, depois foram sendo empurrados para o fundo do armário. Mas ocasionalmente quando o Verão voltava, eu calçava-os de novo, mesmo rotos. Sentava-me nas pedras, nos bancos com as pernas dobradas e fumava um cigarro. Aquela sensação ainda me percorria e iluminava-me por mais alguns dias. Até que finalmente, na minha ultima viagem os all star deram de si. Já não podiam mais. Sem tecido e com as solas totalmente gastas, guardei-os no armário, sabendo que não podiam servir mais. E sabendo que não mais os calçaria, sabia também que o ser jovem tinha terminado. Na semana seguinte fiz trinta anos. 
 

Sunday, January 12, 2014

Resoluções de Ano Novo


Sei que o útimo dia do ano ou o primeiro do ano seguinte são iguais a tantos outros. Como e bebo como sempre, apago as luzes e deito-me para mim mesma. Há quem festeje toda a noite e grite desvairada a fugacidade de mais uma porção de tempo que se esvaiu. Para muitos é só mais um pretexto para beber e para dar uma festa. Para (muitos) outros é certamente o cumprir de tradições só porque sim. Porque é isso que sempre se fez e é isso que se tem que continuar a fazer. Põem-se passas na boca, agarra-se dinheiro enquanto as 12 badaladas vão ribombando e no dia seguinte começa-se de novo com um grande almoço e roupa nova comprada em tons de azul.

Eu sempre soube que essas tradições não fazem sentido. No entanto passados já tantos anos novos e tantos anos velhos, também eu tenho as minhas tradições. Gosto de arrumar os armários e limpar da minha mesa todos os papeis que por ali se acumularam, rever as fotografias que tirei nesse ano. Gosto particularmente de pensar onde estava e quem era no mesmo dia há exactamente um ano atrás. O último dia do ano é assim, tradicionalmente nostálgico.  Finda essa retrospectiva gosto também de pensar no que eu queria que mudasse, as viagens que quero fazer, os defeitos que teimosamente vão perpectuando ainda que os tente afastar. Raramente vou a festas, raramente bebo champagne e ainda mais raramente me deito para além da meia-noite. Mas quando em certos anos não tenho os meus armários para arrumar ou não posso percorrer a pé as ruas desertas e silenciosas na noite de fim de ano, qualquer coisa em mim se agita.  E aí percebo que o ritual deixou de ser apenas um processo mecânico e passou a fazer parte de mim. Eu sou parte das tradições que criei. Cumpri-las é cumprir quem sou.

Thursday, October 17, 2013

Poema lido

Poema "Posso escrever os versos mais tristes esta noite" de Pablo Neruda
Música: Banda sonora do filme "O Piano"



Monday, August 05, 2013

A Bela e Monstro

Maria partiu todos os corações quando era muito jovem. Social, faladora e ciente de como chamar as atenções isso nunca lhe foi dificil. Desde muito cedo que assimilou a necessidade  de se impôr num mundo onde nada mais existia para além da graciosidade, do poder do pódio e da beleza das conquistas. Trazia inevitavelemente atrás de si, uma longa colecção de corações que acabava sempre por destroçar. Os rapazes mais populares viam igualmente nela um prémio apetecivel, mas eram sobretudo os rapazes tímidos e frágeis que a seguiam. Para eles, Maria era uma espécie de Deusa,uma celebridade que enche as paginas das historias côr-de-rosa. Dona de um corpo perfeito, o seu sorriso sempre aberto mostrava uma aparente generosidade que a santificava. Mas aquele muro empático escondia a sua voracidade egocêntrica: Maria colecionava pessoas. Como uma viciada em heroina, Maria atraía os homens para os ter à espera. O seu vício consistia nesse prazer constante de saber o desejo dos que a rodeavam. E sempre que um partia, ela arranjava outro como para não desmanchar aquela aurea que mantinha em sua volta e que, nem nunca se dar conta, era o que usava para evitar confrontar-se com a sua mais profunda solidão.  
Percebi, depois de a conhecer, que ela nunca estivera apaixonada e tão pouco sabia o que era essa dor e essa alegria de finalmente se encontrar viva. Por detras daquela fachada perfeita, escondia-se uma imperfeição de pessoa, constantemente inacabada ou superficial. E por isso, na correria dos seus dias sempre ocupados, Maria nunca percebeu a dor que foi causando. No entanto, Maria valorizava a amizade acima de tudo, muito acima de qualquer amor que pudesse ter. Era com amigos que conseguia relaxar e deixar as suas poses. Era com amigos que aproveitava a vida, e foi com amigos que aprendeu a ouvir outras histórias e a relativizar o seu ponto de vista, sempre tão unilateral e pragmático.
Em mim, Maria viu uma pessoa contrastante e misteriosa. Confessou-me a sua vida em pouco tempo, não resistindo à minha maneira taciturna de ser bom ouvinte.  Pediu-me conselhos, expôs as suas falhas e levou-me em viagens obscuras até ao seu passado. Assim conheci a história de Jorge, um dos seus namorados. Conheceram-se numa festa e a Maria agradou-lhe o seu visual latino e fresco. Jorge tinha um excelente aspecto, a sua barba por fazer rente à face era charmosa sem ser vadia. O seu corpo alto e cuidado, a sua forma simpatica de acolher convidados, tudo isto Maria achou delicioso. Em menos de uma semana, conseguiu levá-lo a jantar. Mas aquela aparência em breve pôs a nú um rapaz frágil e demasiado empenhado no conforto dos outros. Jorge era estudante de música e tocava saxofone. Passava muito tempo sozinho e gostava da sua vida pacata e elitista que se alimentava sempre dentro do mesmo círculo. Maria confessou-me que tivera sido difícil convencer Jorge a sair com ela. Como quase sempre acontecia, Maria forçava as situações até ao limite do impossível. E perante tamanha  desfaçatez, Jorge sucumbiu. Porque era sempre assim, Maria era capaz de sair depressa do pântano que causava, mas uma vez entrando naquelas areias, sabia que Jorge jamais saira delas. E assim aconteceu, quando ao fim de algum tempo Maria se cansou das horas que Jorge passava a ensaiar, ou se queixou dos poucos amigos que tinha. Fora uma desilusão, dissera-me ela. Ele não era o que prometia. Nessa altura, pela primeira vez, percebi quão dura era a sua crueldade. A sua pretensa perfeição estilhaçou-se aos meus pés e tudo o que conseguia ver era um Monstro embelezado.
Jorge sofreu para além do limite com aquela separação. Mais do que perder um amor, perdera a sua identidade. Sentia que a sua vida era ridicula, e que o seu estilo de vida melancólico era um empecilho. Quando mais tarde o vi, ele parecia ter seguido literalmente as passadas de Maria, borrara da sua vida a ternura e a compreensão e agora dominava a arte do pragmatismo, e procurava incenssantemente a luz de qualquer ribalta.

Foi nessa altura que também eu deixei Maria. Cansada de esperar que o Monstro começasse a amar, percebi que não havia chão para que medrassem rosas. Nunca Maria mudaria quem era. Por isso escrevi-lhe uma carta em que me despedi da nossa breve amizade, dizendo-lhe que seguiramos caminhos diferentes e que não mais fariam sentido as suas confissões. E não mais pensei nisso, até receber as cartas e os telefonemas destroçados de Maria que vez após vez me pediam a nossa amizade de volta. Dizia que eu lhe fazia falta e não compreendia as minhas razões. Quando lhe disse que a empatia entre nós se tinha esvaído e que eramos duas pessoas demasiado diferentes para irmos tão paralelas, Maria percebeu que era uma desilusão para mim e que não dera tudo o que prometera. E eu dei-me conta que sem querer, fui o seu primeiro Monstro.