Friday, March 30, 2012

Alice

Consome-me tanto desiludir-me com as pessoas
que me deito a beber.
Depois esqueço-me e conheço-te outra vez num outro dia. Amanhã talvez.
Saimos, e acabamos por foder.
Depois volta a depressão quando
queres entrar na minha casa e procuras
Um propósito para tudo. Até as coisas tem alma,
digo-te eu, já meio desfeita.
Nao há nada que me pertube mais do que as
a ordem que se impõe nas coisas.
Mas tu és tu outra vez, eu é que ainda nao sei.Talvez
nunca venha a saber. Amasso a minha vida do avesso
Enquanto pegas na caneta e
reaarranjas todos os propósitos na forma de escrita.
Arrumo as minhas coisas e parto novamente para o
Mesmo sitio.
Amar tem um propósito, dizes tu quando nao dizes nada.
Cala-te, peço. Esse teu silencio hipócrita incomoda-me.
E como que para nao te ouvir, pego na garrafa:
e bebo porque jamais serei o poeta: eu
vivo enquanto tu fazes de mim
Os teus poemas.

Thursday, January 05, 2012

To be or not to be.

A mãe pos-lhe a mão na cabeça, tocando suavemente os cabelos loiros finos da criança esguia. Era um ritual do qual muitas vezes mais tarde ele se lembraria. A mãe olhou-o e disse-lhe “Um dia vais tocar piano muito bem”. Depois deixava-o ir brincar o dia inteiro pelo areal e pelos bosques cheiros de amoras silvestres. Ele saia de casa de manhã e debaixo da brisa fresca percorria a praia com os seus amigos, caçavam carangueijos e faziam casas nas grutas impregnadas de algas.
Só à noite, depois do banho profundo, se juntava à mãe na grande sala que cheirava a maçãs. Ao pé da janela, o piano espreitava-o. Um ano antes, por curiosidade tinha passado as mãos pelas teclas e ficara deslumbrado com a textura e o som do instrumento. Logo ali, ficara amigo do piano. Mas era pequeno demais para permanecer sentado mais do que cinco minutos, por isso limitava-se a ir tocando nas teclas, dar-se ao prazer de sentir aquela textura e ouvir a mãe dizer-lhe que um dia o tocaria a sério.   

A paixão dele pelo piano, apaixonou-me a mim. Dois dias depois de o conhecer, deitados na cama, ele confessou-me que sempre tinha querido ser pianista. Quando lhe perguntei porque não era, ele suspirou longamente e puxou a roupa para lhe tapar o corpo nú.
“Não é fácil, nunca cheguei a ter aulas quando era criança e agora vai sendo cada vez mais tarde”. Achei aquela resposta estranha e ao mesmo tempo irremediavelmente atraente, na forma como perpetuava um sonho que pretendia matar pelas próprias mãos.
E esse sonho, valia-lhe uma vida dura. Passava pelos sítios sem os adorar, arranjava empregos que o acidificavam por nunca o preencherem e tinha um natural desapontamento para tudo, especialmente pelas pessoas.
Um dia encontrei-me com ele no seu pequeno apartmento. Perto da janela, o piano permanecia intocável e meio-escondido pela luz do entardecer. Ele sentiu-se desprotegido e levou-me para o quarto; essa foi a primeira vez na vida que senti ciúmes.
Como quase tudo na sua vida, também o nosso amor teve um fim quase imediato. Ele não sabia estar comigo e eu não sabia estar com um amor que já não era. Da última vez que gritamos, sai a correr com a certeza que era a última vez que via o piano. Ele, ligou-me mais tarde e uns dias depois, sem qualquer réstia de paixão para pôr em cima da mesa, tomamos um café.
Eu, ainda assim, eu conhecia-o bem o suficiente para saber que a vida dele continuava a mesma miséria de sempre. Com os olhos inchados das insónias, ele olhava para mim à espera de um sonho qualquer, pedindo-me uma lanterna para lhe dizer qual era a direcção do túnel. Disse-lhe para dormir. Disse-lhe para procurar ajuda.
“És a minha única ajuda” disse-me ele. Não o levei a sério, até porque sabia que quando não dormia o fatalismo extremo se apoderava dele. “Que queres fazer?” perguntei-lhe.
E ele começou o seu discurso mais uma vez. O discurso que eu tinha ouvido centenas de vezes durante o curto espaço de tempo que estivera mergulhada no seu coração.
“Já consegui juntar mais algum dinheiro. Vou finalmente ter aulas para aprender a tocar”. Não me mexi um milimetro, consegui nem sequer pestanejar. Depois de um longo silêncio em que tentei que ele percebesse como era repetitivo, sem no entanto ser bem sucedida, levantei-me e fui-me embra.
No dia seguinte ele voltou a procurar-me. A sua figura andrajosa puxava-me a manga da camisa como um miudo e deixei-o entrar na minha casa, ciente de que não tinha um piano para o acalmar.  “Senti saudades” disse-me. Eu continuei sem responder, algo surpreendida. “Porque não falas comigo? Desde ontem que não falas comigo.”
Ponderei durante alguns segundos mas depois disse-lhe que já não aguentava mais aquele discurso repetitivo dele, sobre um sonho que não planeava cumprir. “Para quê?” disse-lhe. “Aprende de uma vez a tocar piano ou então esquece isso de vez. Tu só gostas da ideia de ser pianista.”
Tive a sensação que mesmo que o piano ali estivesse ele teria vergonha de lhe passar as mãos pelas teclas. Não voltei a vê-lo.

Hoje, um ano e sete meses depois recebi uma carta sua.
“Espero que não te importes que te escreva mais uma vez a falar dum assunto repetitivo. Mas este assunto sou eu, não existe mais nada para além disso.
Queria dizer-te que escolhi esquecer a ideia de ser pianista, porque sei (sempre soube) que nunca seria. Sou agora mais honesto para mim próprio e não me alimento de sonhos ridiculos – como tu lhe chamarias”.
Não sou ainda assim mais feliz. Vendi o piano, e deixei de ter a sua companhia à noite, deixei de poder sentir a textura das teclas. Ainda assim não sou mais feliz, tal como não era dantes.“
A carta terminava assim. E ao lado vinha um papel oficial, avisando-me que ele falecera. Eram demasiado covardes para escreverem que ele se tinha suicidado.
E afinal, era a ideia de ser pianista que lhe salvava a vida. 

Friday, December 16, 2011

Mas, para todos os efeitos, continuavam inexperientes.

Ela entrou na sala, mas ele já lá estava. Havia um ruído de fundo que roía como uma traça o background daquela cena. E eles falavam entrecortados, de forma casual, entre as vozes animadas dos outros que por ali andavam. O ruído das vozes impedia-os de ouvirem com nitidez a música que passava na rádio, e que ambos, sem notarem trauteavam com os pés. Até que alguém achou que havia demasiado ruído na sala, e apagou o rádio. No silêncio estreito daquela confusão, a conversa banal entre eles morreu; ouviam o eco das suas próprias vozes. Por isso, pousaram o copo e voltaram para casa, como sempre faziam.

No dia seguinte, a cena repetia-se, monotonamente, sempre com a mesma intensidade frouxa. Estabelecia-se sempre uma conversa causal que não significava nada sem que no entanto, eles se sentissem desconfortáveis. Ela falava um pouco sobre o tempo, sobre as greves da semana, a chatice de ter que ficar até mais tarde no trabalho. Ele falava do bom que era almoçar sem falar de trabalho, falava das férias do Verão e dos livros de banda desenhada. E aceitavam naturalmente esse limite da sua relação – não se pode amar toda a gente. E mantiveram-se casualmente assim por semanas indeferidas, num mar plano e doce, sem que existissem ondas ou tremores. Boiavam um no outro.

Um dia, porém, ele entrou na sala e ela estava a falar sobre o seu baixo. Casualmente, como sempre, ele disse-lhe que também tocava baixo. “Ah, então também gostas de ouvir o que escorre por detrás das músicas?”Ficaram mais do que o costume a trocar várias impressões sobre isso, sem que no entanto, se sentissem subitamente apaixonados um pelo outro. No fim, ele disse “ devíamos experimentar tocar essa música que tu gostas. Eu também sei tocar guitarra, podemos experimentar”.

Ela aceitou de imediato, porque a fascinava aquela simbiose da música partilhada. Tentara algumas vezes, sem muito sucesso. Há sempre muitos sapos a beijar no caminho – fora uma lição que lhe ficara desde pequena.

No dia seguinte, perante uma audiência curiosa eles sentaram-se frente a frente. Antes de começarem, avisaram que eram ambos inexperientes.

Depois as luzes fecharam-se e ela começou a tocar, sentindo-se estranhamente nervosa. Devagar, sem entrar na música, ele começou lentamente a despi-la. Beijou-lhe o pescoço que oscilava naquele tom grave e profundo que só o baixo capta. A audiência perdeu a respiração e congelou-se. A luz baça pousava-se apenas nela e ele continuou de forma sensual a tocar-lhe todas partes do corpo. Há medida que aquele prazer lhe preenchia o corpo, de olhos fechados, a linha de baixo foi ficando mais intensa. E num pequeno clímax, ela abriu os olhos e olhou-o fulminantemente. Ele tirou a camisa que lhe faltava e a guitarra entrou na música. Primeiro devagar, completando aqueles pequenos espaços de som vibrante, depois mais depressa, estendendo-se numa melodia ousada que aumentava as notas dela. E ela gritava, no seu tom baixo, a seu tempo enquanto ele ia acrescentado pedaços irregulares daquele amor que faziam em conjunto. Olhavam-se agora de forma provocatória e simbiótica, enquanto a guitarra se tornava cada vez mais forte, cada vez mais poderosa, sem nunca ameaçar, no entanto, a beleza dos sons repetidos que ela deixava escapar.
E presos àquela inevitável paixão, conjugaram-se ambos para o mesmo fim. Com a mesma força, a guitarra chegou ás mesmas notas do baixo, tocavam agora a mesma melodia; encontraram-se e os seus corpos misturavam-se num prazer demorado e intenso que fazia corar a audiência. Quando a música atingiu o seu auge, eles atingiram o orgasmo mais violento que haviam experimentado: o Amor explodiu e desfragmentou-se em pequenas ondas de prazer que os electrizaram, muito para além de terem desligado os amplificadores.
Quando a última onda de som abandonou a sala, a audiência, envergonhada, aplaudiu timidamente. Outros saíram simplesmente da sala.

Eles vestiram-se, pegaram nos instrumentos e saíram da sala sem trocarem uma palavra. Nunca pensaram, um dia, casualmente fazerem sexo em público.




Thursday, December 15, 2011

Devolva-me

Foi ás cinco e cinco da tarde que voltei a entrar no meu apartamento. A tarde era uma chuva miúda, a escorrer por entre um dedilhar triste de guitarra.
Ele tinha ficado preso à cadeira do café onde nos costumávamos encontrar há alguns meses atrás, quando estávamos terrivelmente apaixonados um pelo outro, mas nenhum de nós o dizia. Hoje, pouco disséramos, e faláramos tanto.
Sete dias atrás, ele procurara-me, e sem qualquer discurso prévio, disse que me tinha traído. Os seus olhos encheram-se de lágrimas que nunca chegaram a cair. A tarde era de chuva miúda como a de hoje, mas a guitarra ainda não tocava. Felizmente, eu estava sentada, se não teria sido eu a cair e eventualmente salvo algumas lágrimas que se espalhassem pelo chão.
Fora uma frase curta e dita com pouca respiração, o libertar de uma bolha que lhe começara a crescer e com a qual, ele afinal, não sabia viver.
As minhas bolhas, dentro dos meus pulmões ficaram subitamente caladas. Uma névoa de vazio invadiu a minha respiração, como se a cada segundo procurasse uma “não pergunta” para ouvir uma “não reposta”. Senti, como um fio que se corta, a nossa intimidade a fugir-me das mãos.
Sempre pensei que se isto acontecesse um dia, eu poderia finalmente atirar-lhe um vaso, como nos filmes. Mas percebi que isso acontece a quem tem força para pegar no vaso e eu não tinha. Seria preciso talvez actuar aquela cena muitas vezes, para sentir a adrenalina de lhe esmagar a cabeça numa porcelana, e eu era só uma amadora a subir ao palco pela primeira vez.
Ele perguntou-me se eu o podia perdoar. Disse-o sentidamente, sem referir pormenores e acrescentou que continuaria a amar-me, mesmo que eu não o perdoasse.
Mas nessa altura a guitarra começou a fazer-se ouvir e senti ao longe uma janela aberta, de onde se escapava um pássaro. Pedi licença, afastei os vasos delicadamente do caminho e fui embora, pedindo exageradamente desculpa a todas as pessoas que encontrava no caminho.

Quando fiquei sozinha, abateu-se uma tristeza sobre mim e mais tarde nessa noite uma necessidade de vingança. Sempre pensei durante o tempo em que estivéramos juntos, que não tínhamos uma relação – estávamos simplesmente apaixonados. Pela primeira vez perguntei-me quando é aquilo tinha acontecido, quando e com quem.
No dia seguinte quando uma amiga passou pelo meu apartamento e me perguntou se estava tudo bem, menti-lhe envergonhada com o facto de ter estado apaixonada tão profundamente com alguém que me traíra.
Não fazia diferença se ela sabia, mas fazia diferença que fosse eu quem lhe dissesse. Era como se eu fosse uma mulher muçulmana, a pedir desculpa por ter sido violada.
Talvez ela soubesse, pensei eu quando ela se foi embora. Se calhar só tinha vindo para me consolar.
Todo o apartamento me falava dele, toda a minha vida me falava dele. Agora sem ele, teria que redecorar tudo, desde os objectos que estavam em cima da estante à minha pele. Que faria eu com as minhas memórias falsas? Oh, mas não são falsas, era o que ele me diria, que fui tudo um erro. Um terrível engano do momento, uma tentação espontânea, e que afinal somos todos humanos. Mas era a mim que me doía continuamente e de repente pus-me a relembrar qualquer oportunidade que tivera de o trair. E dei por mim a lamentá-la. Devia ser mais humana, pensei eu. Devia cometer mais erros e amar mais.
Hoje no café fora isso exactamente que ele me dissera. Que me contara para que pudesse confiar nele uma outra vez. E que esperava que eu o conseguisse perdoar, porque ele não imaginava a vida sem mim. E antes que ele pudesse terminar a frase em que me dizia que eu era bem melhor que a rapariga com quem tinha estado, respondi-lhe que eu não sabia o que era perdoar. Ele olhou-me confuso.
A não ser que haja perdão por esta vergonha que sinto, terminei eu.
Foi um erro, disse-me ele novamente, quase desesperado. Eu sei, disse-lhe sinceramente. E tu és humano, como todos. Ele anuiu, com as lágrimas finalmente expostas.
Eu também quero ser, disse-lhe. Ele olhou-me espantado.
Por isso, hoje, não compreendo, só sinto.  



Friday, October 28, 2011

Os Fosforos

Acende-se um cigarro no lugar onde costumava ter a boca, os rumores adiantam que já não tenho coracão. Sempre quis ser o Espantalho, e acabei como o Homem de Lata. 

Um dia houve em que parada na estacão de comboios troquei meia duzia de palavras com uma velha que vendia pensos rápidos a cinco vezes menos do que eles custavam. Estava um dia de chuva, sem chover e eu a reparar nos pormenores. Que inferno! – esta minha mania.  Ela tinha um tornozelo ligado e a pele enrugada estava cheia de pequenos pontos altos, enregelados. Ficamos as duas a trocar palavras pequenas enquanto ela me passava os pensos que lhe comprei por o triplo do que eles custam. Nao sei porque fiz isso.
Mas fiz.
E foi ai que ela se agarrou a mim e começou a chorar. E percebi – que Inferno outra vez! – que era agora que a verdadeira esmola saia do meu bolso.
Quando o comboio chegou, ambas direitas na passadeira olhamos em frente. Eu em silêncio, ela com a  voz elevada a pedir que Deus me abencoasse pela minha bondade.
Quando me sentei no lugar soturno da janela cinzenta do comboio, tive vontade de vomitar.

Aquela  criança contava os trocos para comer uma sandes de fiambre na hora de almoço. Lá fora chovia a sério, agua suja como aquela que enchia o copo. E que empurrava o pão para baixo, quando já nao sobrava dinheiro para mais nada.
Sentada nas escadas, comia em silêncio. Chegava-lhe o cheiro do cinzento do céu e das paredes da escola. E dos risos podres à sua volta.
“Era a pobreza a chegar” – pensava. “Espero que se fique pelos meus bolsos.”
Cansada de ter pena de si mesma, ia para casa ler a Menina dos Fósforos. Mas aquela insuportavel mania impressionista gravava-lhe na memória a imagem dos pés gelados e azuis da menina, arrastados pela neve branca ; e o desespero silencioso congelado em clarões luminosos de segundos.
E Invariavelmente, acabava a vomitar. 


Friday, September 23, 2011

True to His Own Spirit

Estas ocasiões sempre me deixaram nervosa. Uma vez mais, de janela aberta, estava eu a olhar o espelho e através dele o vestido que repousava na minha cama, impecável. Através do espelho, até parecia bonito.
Era em tudo, um vestido bonito, muito delgado e de um azul-marinho escuro. As linhas eram direitas e subtis, cheias de uma delicadeza marcante. Era em tudo, um vestido bonito.
Exceptuando que não era o meu.

Adiei o tempo, fumando um cigarro à janela de costas para o espelho. O que eu queria mesmo era escapar àquele casamento. Apetecia-me pegar no vestido e ir com ele para a praia, onde ele era apenas bonito, e eu era apenas uma pessoa.
Lá em baixo na sala, estavam à minha espera – eu já o sabia – os elogios e os sorrisos de manteiga, prontos a integrar-me num ambiente fácil e volátil.

E logo eu que não acreditava em elogios nem tão pouco em Amor. E logo eu, que não acreditava em nada a não ser em mim própria.

O meu irmão apareceu à porta do quarto e disse –me: “Não tornes as coisas sempre difíceis. É só um vestido e até te fica bem. Veste-o e vem divertir-te connosco”. Ele desapareceu antes que eu pudesse responder. Até porque ele sabia a resposta.

Tirei um outro cigarro, fechei a porta com algum estrondo e senti uma irritação chegar-se às minhas bochechas inflamadas. Atirei com o vestido ao chão e decidi que não iria a casamento algum, aturar crianças de choro fácil e adultos prontos a beberem para esquecerem os seus próprios casamentos. A realidade era tão transparente que a ideia de por um vestido bonito para tapar tudo aquilo me pareceu insuportável de mais.

A realidade era tão feia como as pessoas e os sítios. Atravessei a casa sem ninguém dar por mim e sai pela porta do fundo. Caminhei até ao mar, e por ali fiquei a ver as ondas e ouvir o vento zumbir-me aos ouvidos que estava sozinha.

Ao ondular nas dunas frias de fim de tarde completamente à deriva e com um peso morto no lugar onde antes costumava estar o meu coração, dei-me conta que a solidão estava mais comigo do que eu própria. Como um relógio cujo tic-tac era audível até quando eu dormia.

Reparei por isso numa rapariga mais velha que sentada num estrado de madeira lia um livro, apesar do vento irregular que lhe levantava as páginas. Quando me aproximei, reparei que ela não era tão nova quanto me parecera ao longe. Estendeu-me um cigarro e disse-me “ Que estás aqui a fazer? Não devias estar a aproveitar este fim de noite?” Usualmente, esta teria sido a frase que me faria deixar a conversa imediatamente, mas desta vez sentei-me e disse-lhe “ Estou a aproveitá-la”. Ela forçou um sorriso que nada tinha de elogioso. “Parece-me que estás mais a desperdiçar as oportunidades da vida. Que esperas encontrar aqui nesta praia deserta?”. As ondas, o som o mar, esta pequena liberdade de ser tudo – pensei eu. “ A minha solidão” respondi-lhe envergonhada.
Ela fechou o livro meio impaciente e olhou-me de alto a baixo, num misto de compaixão e fúria que nunca tinha sentido antes. “As pessoas não estão aqui nesta praia. A vida não está aqui, está lá fora. As vidas dos livros são para os velhos”.   Senti um nó profundo na minha garganta e pela primeira vez em anos achei que as lágrimas me iam saltar dos olhos. Fiz um esforço hercúleo para que isso não acontecesse e a minha garganta continuou silenciosa. Sentia que tudo aquilo era demais para mim como um cruzamento demasiado caótico onde eu era forçada a escolher um caminho ou a ser pisada pelos que me seguiam de perto. Quando me levantei, estava em mim um desespero tão grande que a ideia de o afogar naquelas ondas me pareceu verdadeiramente plausível.

Quando cheguei a casa, já não estava lá ninguém. Devagar subi as escadas, vesti o vestido azul-marinho, maquilhei-me e juntei-me à festa do casamento. O meu irmão guardara-me um lugar na mesa do jantar e quando chegamos à sobremesa era como se eu estivesse lá estado desde sempre. As bebidas iam e vinham, a música barata fazia-me trautear o pé e considerei até ir dançar um pouco. Afinal eu até era capaz de me enganar, e o meu vestido enganava muito bem. Quando o terceiro rapaz me convidou para dançar, eu dirigi-me à casa de banho, e olhei-me longamente ao espelho: o vestido ficava-me bem. O rapaz esperava-me no fim das escadas e eu disse-lhe “Podemos ir”. Ele voltou-se espantado e reparei que não o era o mesmo que me tinha convidado para dançar. Era incrivelmente bonito e naquele pequeno gelo em que me quedei por os ter confundido reparei que ele estava simplesmente vestido com umas calças pretas e uma camisa que esvoaçava. Timidamente disse-me “não gosto de dançar, desculpa”.

“Confundi-te com outra pessoa, peço desculpa”. A minha pose tinha desaparecido e senti-me patética naquele vestido que me afastava de mim. O que mais me custou foi o olhar vago que ele me lançou. E como eu conhecia aquele olhar, era o meu olhar. Não sabendo bem como, eu tinha voado para o corpo daquele rapaz e ele olhava-me como um espelho. E quando ia tentar salvar-me daquele afogamento, o meu par voltou no seu fato impecável e no seu sorriso brilhante. Ofereceu-me o braço, apontando-me como um deles. Antes de me juntar a ele olhei o rapaz uma vez mais e disse-lhe “podes juntar-te a nós, vem lá para dentro”.

Mas ele já ia no caminho oposto e a última coisa que lhe ouvi foi “ Apetece-me antes ir ver a praia”.

Não voltei a falar com ele. A meio da noite, quando tudo aquilo era demasiado insuportável para mim, despedi-me e fui a pé para casa, descalça e nua de mim mesma. No caminho, senti o perfume das dunas e ondulei-me por ali uma vez mais. Sem surpresa, vi a silhueta dele, sentado na areia. A lua ia alta e iluminava de forma bela a rapariga que lhe fazia companhia, enroscada numa manta velha.


Sunday, September 11, 2011

O Passado é inútil como um trapo

O Beijo. Acordou silenciosamente, tremendo. Era tão reprimido quanto isso. O soalho de madeira estava impecavelmente liso, espalmado pelo luar que inundava o quarto inteiro. Ela dormia na cama de dossel solitária encostada ás almofadas frescas de tecido branco e fresco. Como a sua pele, a sua vida e a sua casa.

Sem fazer barulho, habituado como um gato a caminhar de veludo, desceu as escadas, passou pelo salão e abriu a porta do jardim. Dali, via-se a cidade longínqua e luminosa atravessada por um rio de planície verde.

O jardim não tinha cadeiras e por isso ele caminhou pela sua relva cortada até à pequena vedação que o separava do mundo. Quando lá chegou, ligou-me.

“Sonhei com ela outra vez”. Eram três da manhã, mas como sempre eu não conseguia dormir. Quando o telefone tocou eu já sabia que era ele. De tempos a tempos acontecia-lhe. E de forma casual, respondi-lhe o que sempre lhe dizia: “Amanhã tens de procurá-la.” Como se eu soubesse o remédio que ele precisava. Como se ele tivesse uma doença crónica, que nunca se curava mas era atenuada sempre da mesma maneira.

Houve um silêncio leve na chamada, enquanto eu imaginava o cigarro que ele puxara do bolso, apesar de saber que ele não fumava, assim como o sentia a vaguear à deriva pelo jardim, apesar de saber que estava encostado à vedação e olhava hipnotizado os pontinhos vermelhos e verdes do horizonte.
“ E se ela não é como eu me lembro? E se ela me rejeita?”

Já perdera a conta das vezes que esta conversa se instalara entre nós. E sobretudo, eu sabia o que era esse inútil trapo que é o passado. Ele injectava-se com falta de memória; eu sofria.
“Procura-a amanhã. Tem que ser”. E desliguei.


No dia seguinte, quando acordou, atirou com os lençóis para trás, espreguiçou-se longamente deixando o corpo provar todo o seu entusiasmo. O sol fraco escapava pela fresta da janela de madeira iluminando-lhe as pupilas sem o magoar. Ao pequeno-almoço, ligou-me de novo “Vou procurá-la agora. Á livraria onde ela trabalhava”. Parecia-me tão feliz, que quando desliguei a chamada não pude evitar sentir um golpe profundo de dentro para fora. As minhas entranhas esfaqueavam-me e o resultado era um sangue coagulado ao contrário.

Enquanto o imaginava a escolher a roupa e a acalmar as borboletas que lhe comiam o estômago, decidi ir dar um passeio de bicicleta, como fazia quando era pequena. Meia hora depois, com os braços abertos e o vento a insuflar a minha camisola tinha revivido a história dele – outra vez. Aquela rapariga perfeita, que por entre tantas que ele tinha conhecido, permanecera imaculável nos seus quinze anos. Ele contara-me as horas que passaram no sótão da casa dela, isolados do mundo pelos telhados baixos e a luz castanha filtrada pelas clarabóias mal lavadas. Nesse tempo, o estômago dele estava sempre revirado, acordava a meio da noite estupidamente feliz e apavorado ao mesmo tempo. Lembra-se, disse-me ele, de ter pena de morrer. Ás vezes ficavam deitados no sótão, estendidos em tapetes velhos. Ele via-a por entre as bolhas de sabão enquanto lá fora chovia e o perfume inundava o ar. Falavam das perguntas difíceis e desse futuro que tardava a esperar por eles.
Por isso ela cheirava a chuva e o futuro cheirava a ela.

Com as botas enlameadas e as bochechas vermelhas do calor, desci da bicicleta e sentei-me à beira do ribeiro. Ameaçava chover e pensei que talvez desta vez ele estivesse com ela, como nos filmes.
Mas nem cinco minutos passados, e ouvi passos atrás de mim. Vinha ao meu encontro, ao sítio onde nos encontrávamos sempre. Sentou-se calmo e disse-me o mesmo de sempre “Ela já não se lembra de mim”.

Abracei-o e depois ficamos os dois a ver a água fluir enquanto as nuvens se encavalitavam e tornavam o ar irrespirável.
Ele precisava de sentir o estômago ás voltas de vez em quando, para sentir que estava vivo. Eu precisava de o ver fazer isso, para saber que não valia a pena.